terça-feira, 12 de junho de 2007

História da Igreja - Parte 8

A defesa da fé
(texto extraído e adaptado da obra de Justo L. Gonzales, Uma História Ilustrada do Cristianismo)
Durante todo o século 2, e boa parte do século 3 , não houve uma perseguição sistemática contra os cristãos. Ser cristão era ilícito: mas só eram castigados quando por alguma razão os cristãos eram levados diante dos tribunais.
A perseguição e o martírio pendiam constantemente sobre os cristãos, como uma espada de Dâmocles. Mas que essa espada caísse, ou não, sobre suas cabeças, dependia das circunstâncias do momento, e acima de tudo da boa vontade das pessoas.
Se por alguma razão alguém queria destruir algum cristão, tudo o que tinha de fazer era levá-lo diante dos tribunais. Tal parece ter sido o caso de Justino, acusado por seu rival Crescente. Em outras ocasiões, como no martírio dos cristãos de Leão e Viena, era a populaça que, instigada por toda classe de rumores sobre os cristãos, exigia que fossem presos e castigados.
Em tais circunstâncias, os cristãos se viam na necessidade de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para dissipar os rumores e as falsas acusações que circulavam a respeito de suas crenças e de suas práticas.
Se conseguissem que seus concidãos tivessem um conceito mais elevado da fé cristã, ainda que não chegassem a convencê-los, pelo menos conseguiriam diminuir a ameaça da perseguição.
A esta tarefa se dedicaram alguns dos mais hábeis pensadores e escritores entre os cristãos, aos quais é dado o nome de "apologistas", isto é, defensores. E alguns dos argumentos em prol da fé cristã que aqueles apologistas empregaram vêm sendo utilizados na defesa da fé através dos séculos.
Mas, antes de passar a expor algo da obra dos apologistas, é necessário que nos detenhamos para resumir os rumores e acusações de que eram objeto os cristãos, e que os apologistas intentaram refutar.

As acusações contra os Cristãos
O que se dizia sobre os cristãos pode ser classificado em duas categorias > os rumores populares e as críticas por parte da classe culta.
Os rumores populares se baseavam geralmente em algo que os pagãos ouviam dizer, ou viam os cristãos fazer, e então os interpretavam erroneamente. Por exemplo, os cristãos se reuniam todas as semanas para celebrarem uma refeição a que frequentemente chamavam “festa de amor". Essa refeição era celebrada privadamente, e somente eram admitidos os que haviam sido iniciados na fé, isto é, os batizados.
Além disso, os cristãos se chamavam "irmãos" entre si, e não faltavam casos em que homens e mulheres diziam estar casados com seus "irmãos" e "irmãs". Baseados nestes fatos, foram se tecendo rumores cada vez mais exagerados, e muitos chegaram a crer que os cristãos se reuniam para celebrar uma orgia em que se davam uniões incestuosas.
Segundo os rumores, os cristãos comiam e bebiam até embriagarem-se, e então apagavam as luzes e davam curso às suas paixões. O resultado era que muitos se uniam sexualmente a seus parentes mais próximos.
Também baseado na comunhão surgiu outro rumor. Já que os cristãos falavam de comer a carne de Cristo, e já que também falavam do menino que havia nascido em um estábulo, alguns pagãos chegaram a crer que o que os cristãos faziam era esconder um menino recém-nascido dentro de um pão, e o colocarem diante de uma pessoa que desejava ser cristã. Os cristãos então ordenavam que cortasse o pão, e logo devoravam o corpo ainda palpitante do menino. O neófito, que se havia feito participante de tal crime, ficava assim comprometido a guardar o segredo.
Outra estranha opinião que alguns sustentavam era que os cristãos adoravam a um asno crucificado. Algum tempo antes, haviam dito que os judeus adoravam a um asno. Agora, começaram a transferir essa opinião aos cristãos, a quem se fazia então objeto de zombaria.
Todas estas idéias — e muitas outras — que circulavam sobre os cristãos eram todas falsas, e para refutá-las os cristãos deviam apenas apontar para sua própria vida e conduta, cujos princípios eram muito mais restritos do que os dos pagãos.
Mas havia outras acusações que se faziam contra os cristãos, não pelo vulgo mal informado, mas por pessoas cultas, muitas das quais conheciam algo das doutrinas cristãs. Sob diversas formas, todas estas acusações podiam ser resumidas em uma > os cristãos eram pessoas ignorantes cujas doutrinas, pregadas sob um verniz de sabedoria, eram em realidade néscias e contraditórias.
Em geral, esta era a atitude que adotavam os pagãos cultos e de boa posição social, para quem os cristãos eram uma gentalha desprezível.
Na época de Marco Aurélio, um autor erudito, do qual só sabemos que se chamava Celso, compôs contra os cristãos um tratado que chamou "A palavra verdadeira". Ali Celso expressa o sentimento dos que, como ele, se consideravam sábios e refinados:
"Em algumas casas privadas encontramos com pessoas que trabalham com lã e com trapos, e como sapateiros, isto é, as pessoas mais incultas e ignorantes. Diante dos chefes de família, esta gente não se atreve a dizer uma só palavra. Mas assim que conseguem apartar-se com os me¬inos da casa, ou com algumas mulheres tão ignorantes como eles, começam a lhes dizer maravilhas. (. . .) Os que deveras queiram saber a verdade, que deixem seus mestres e seus pais, e que se juntem com as mulheres e os meninos às habitações das mulheres, ou à oficina do sapateiro, ou à selaria, e ali aprenderão a vida perfeita. É assim que estes cristãos encontram pessoas que lhes dão crédito" (Orígenes, Contra Celso, 3:55).
Pela mesma época, Cornélio Fronton, que havia sido mestre de Marco Aurélio, compôs outro ataque contra os cristãos que, infelizmente, se perdeu. Entretanto, é possível que o autor cristSo Minúcio Félix esteja citando a obra de Fronton ao pôr nos lábios do um pagão as seguintes palavras:
"Se vos permanece um ápice de sabedoria ou de vergo¬nha, deixai de investigar o que sucede nas regiões celestiais, e os destinos e segredos do mundo. Basta que olheis onde pondes os pés, sobretudo as pessoas como vós, sem educação nem cultura, as pessoas rústicas e rudes" (Otávio, 12).
Logo, a inimizade contra os cristãos, que muitas vezes pretendia se basear só em questões de religião e doutrinas, também tinha muito a ver com preconceitos de classe. As pessoas supostamente refinadas não podiam ver com bons olhos que essa gentalha, pobre e inculta, pretendesse conhecer uma verdade que elas não conheciam.
Em todo caso, as pessoas cultas atacavam o cristianismo, dizendo acima de tudo que era uma religião de bárbaros. Boa parte do que os cristãos ensinavam não havia sido descoberto pelos gregos, nem pelos romanos, mas sim pelo inculto povo judeu, cujos supostos sábios nunca se elevaram à altura dos filósofos gregos. E o pouco de bom que pode ser encontrado nas Escrituras dos Judeus deve-se provavelmente, a que fosse copiado dos gregos.
Além disso — seguem dizendo as pessoas como Celso, Fronton e outros — o Deus dos judeus e cristãos é um Deus ridículo. Por um lado dizem que é onipotente, e que é o ser supremo que se encontra acima de tudo. Mas por outro, o descrevem como um ser curioso, que se imiscui com todos os assuntos humanos, que está em todas as casas, vendo o que se diz e até o que se cozinha.
Esse modo de conceber a divindade é uma irracionalidade. Ou se trata de um ser onipotente, por cima de todos os outros seres e, portanto, apartado deste mundo, ou se trata de um ser curioso e intrometido, para quem as pequenezas humanas são interessantes.
Em todo caso, seja qual for esse Deus dos cristãos, o fato é que seu culto destrói a própria fibra da sociedade, pois torna as pessoas que o seguem abstêmios de toda classe de atividades sociais, sob pretexto de que participar nelas seria adorar a deuses que não existem.
Mas, se em verdade tais deuses não existem, para que temê-los? Por que não participar de seu culto junto a pessoas sensatas, mesmo que a gente não creia neles?
O fato parece ser que os cristãos, que dizem que os deuses pagãos são falsos, entretanto continuam temendo a esses deuses. Quanto a Jesus, basta recordar que foi um malfeitor condenado pelas autoridades romanas.
Celso chega até a dizer que era filho ilegítimo de Maria com um soldado romano. Se de fato era Deus ou Filho de Deus, porque permitiu que o crucificassem? Por quê não fez que caíssem mortos seus inimigos? Por quê não desapareceu quando iam cravá-lo no madeiro?
E supondo que de fato Deus veio à terra em Jesus, pergunta Celso: De que pode servir tal visita de Deus à terra? Será talvez para averiguar o que se passa entre os seres humanos? Não sabe ele já de tudo? Ou será que sabe, mas não pode corrigi-lo se não vem ele pessoalmente fazê-lo? (Con¬tra Celso, 4:2).
Por último, esses cristãos andam pregando e crendo que hão de ressuscitar. Baseados nessa fé, é que enfrentam o martírio com uma obstinação quase incrível. Mas não é coisa de pessoa sensata deixar esta vida, que é coisa segura, por outra vida, supostamente superior que, no melhor dos casos, é coisa duvidosa.
E isso de ressurreição é o cúmulo das idiotices cristãs. Como ressucitarão aqueles corpos destruídos por fogo, ou devorados por peixes ou pelas feras? Irá Deus por todo o mundo recolhendo e unindo os pedaços de cada corpo? Como se arranjará Deus, no caso daquelas porções de matéria que pertenceram primeiro a um corpo, e depois a outro? Será que o primeiro dono adjudicará esse pedaço do seu corpo? Em tal caso, ficará um buraco no corpo ressucitado do dono posterior?
Como vemos, todas estas observações, comentários e perguntas se dirigiam ao cerne da fé cristã. Já não se tratava de rumores infundados sobre orgias incestuosas, nem de práticas de canibalismo, mas se tratava, antes, de doutrinas do cristianismo. A tais zombarias e ataques não se podia responder com uma mera negação. Era necessário, antes, oferecer argumentos sólidos que respondessem às objeções que se apresentavam. Tal foi a obra dos apologistas.

Os principais apologistas
A tarefa de defender a fé, diante desta classe de ataques, produziu algumas das mais notáveis obras teológicas do século segundo. E ainda no terceiro e quarto, não faltou quem continuasse essa tradição. De nossa perspectiva, entretanto, os autores que nos interessam no momento são os que primeiro enfrentaram essa tarefa, isto é, os que escreveram durante o século 2 e os primeiros anos do século 3.
Possivelmente uma das mais antigas apologias que chegaram a nossos dias é o "Discurso a Diogneto", cujo autor anônimo — talvez Quadrato — parece ter vivido nos princípios do século segundo.
Pouco depois, antes do ano 138, Aristides compôs outra apologia que parecia ter sido perdida, mas foi descoberta em data recente. Mas o mais famoso dos apologistas foi Justino, o Mártir, a cujo martírio já nos referimos na aula anterior.
Justino tinha seguido uma longa peregrinação espiritual, indo de doutrina em doutrina, até que se convenceu de que o cristianismo era a "verdadeira filosofia".
Dele se conservam três obras: duas apologias e o "Diálogo com Trifon", que consiste em uma discussão com um rabino judeu. Um discípulo de Justino, Taciano, compôs outra apologia sob o título de "Discurso aos gregos".
Pela mesma época, Atenágoras escreveu uma "Defesa dos cristãos" e outro tratado "Sobre a ressurreição dos mortos". Por volta do ano 180, o bispo de Antioquia, Teófilo, escreveu "Três livros a Autólico", que tratavam sobre a doutrina cristã de Deus, a interpretação das Escrituras, e a vida cristã, nos quais refuta as objeções dos pagãos sobre cada um destes pontos.
Todas as obras mencionadas foram escritas em grego, e no século 2. No século 3, o grande mestre alexandrino, Orígenes, escreveu uma refutação "Contra Celso", que já citamos mais acima, e que foi também escrita em grego.
Na língua latina, os últimos anos do século 2 e os primeiros do século 3 nos deixaram dois escritos apologéticos, parecidos entre si, e sobre os quais os eruditos não concordam acerca de qual teria sido escrito primeiro: a "Apologia" de Tertuliano e o "Otávio" de Minúcio Félix, que também foi citado antes.
Todas estas obras são importantes porque é quase exclusivamente através delas que conhecemos os rumores e as críticas dos quais os cristãos eram objeto, e também porque nelas vemos a igreja enfrentando, pela primeira vez, a tarefa de responder à cultura que a rodeia.

Fé cristã e cultura pagã
Os cristãos do segundo 2 eram acusados de ser gente bárbara e inculta, portanto, eles se viram obrigados a discutir a questão das relações entre sua fé e a cultura pagã.
Naturalmente, dentro da igreja, todos concordavam em que tudo aquilo que se relacionasse com o culto dos deuses devia ser rejeitado. Por esta razão. os cristãos não participavam de muitas cerimônias civis, nas quais se ofereciam sacrifícios e juramentos aos deuses.
Também lhes era proibido serem soldados, em parte porque poderiam se ver obrigados a matar alguém e, em parte, porque os soldados deviam fazer juramentos e oferecer sacrifícios a César e aos deuses.
De igual modo, haviam muitos cristãos que pensavam que as letras clássicas não deviam ser estudadas, pois nelas se contava toda a sorte de superstição e até de imoralidade acerca dos deuses.
Para ser cristão era necessário se comprometer com o culto único a Deus e a Jesus Cristo, e qualquer concessão em sentido contrário equivalia a renegar Jesus Cristo que, por sua vez, renegaria o apóstata no dia do juízo.
Mas, se todos concordavam quanto à necessidade de se abster da idolatria, nem todos concordavam quanto a postura que devia ser adotada diante da cultura clássica pagã.
Essa cultura incluía a obra e o pensamento de sábios, tais como Platão, Aristóteles e os estóicos, cuja sabedoria tem recebido a admiração de muitos até os nossos dias. Rejeitá-la equivalia a rejeitar muito do melhor que o espírito humano havia produzido. Aceitá-la poderia parecer como uma concessão ao paganismo e como o começo de uma nova idolatria. Diante desta alternativa, os cristãos dos séculos 2 e 3 seguiram dois caminhos.
De um lado, alguns não viam senão uma oposição radical entre a fé cristã e a cultura pagã. Esta postura foi expressada nos princípios do século 3 por Tertuliano, em uma frase que se fez famosa: "Que tem Atenas a ver com Jerusalém? Ou que tem a ver a Academia com a Igreja?"
Tertuliano escreveu estas linhas porque, como veremos mais adiante, em seu tempo, circulavam muitas histórias evasivas sobre o cristianismo, e ele estava convencido de que estas heresias se deviam ao fato de que al¬guns haviam tratado de combinar a fé cristã com a filosofia pagã.
Mas ainda antes de tais heresias se constituirem numa preocupação fundamental para os cristãos, já havia quem adotasse uma postura semelhante frente à cultura clássica.
Talvez o melhor exemplo disso possa ser visto no "Discurso aos gregos" composto por Taciano, o mais famoso discípulo de Justino. Esta obra é um ataque frontal contra tudo o que os gregos consideravam valioso, e uma defesa dos "bárbaros", isto é, dos cristãos.
Os gregos chamavam "bárbaros" a todos os que não falavam como eles, e, portanto, o primeiro fato que Taciano lhes atira na cara é que eles mesmos não se puseram de acordo quanto a como se devia falar o grego, pois em cada região se falava de um modo diferente.
Além disso, essas pessoas que pen¬sam que sua língua é a suprema criação humana inventaram a retórica, que não é senão a arte de vender as palavras por ouro, oferecendo-lhes ao melhor licitador, mesmo que com isso se perca a liberdade de pensamento e se defenda a injustiça e a mentira.
Tudo o que há de valioso entre os gregos — prossegue Taciano — eles o tomaram dos bárbaros. Assim, por exemplo, a astronomia aprenderam dos babilónios, a geometria dos egípcios, e a escrita dos fenícios. E o mesmo pode se dizer sobre a filosofia e a religião, pois os escritos de Moisés são muito mais antigos que os de Platão, e até mais antigos que os de Homero.
Se Homero e Platão eram realmente pessoas cultas, segundos os próprios gregos dizem, era de se supor que conhecessem os escritos de Moisés. Portanto, qualquer coincidência entre a cultura supostamente grega e a religião dos "bárbaros" hebreus e cristãos deve-se a que os gregos aprenderam sua sabedoria dos báraros.
Mas, em todo caso, o certo é que os gregos, ao lerem a sabedoria dos "bárbaros", não a entenderam e, portanto, adulteraram a verdade que os hebreus conheciam. Assim, a suposta abedoria grega não é senão um pálido reflexo e uma caricatura da verdade que Moisés conheceu e que os cristãos agora pregam.
Se isso é certo com relação ao melhor da cultura pagã, podemos advinhar o que Taciano dirá sobre os deuses dos gregos. A respeito dos deuses, Homero e os demais poetas gregos contam coisas dignas de vergonha, pois entre eles se pratica a mentira, o adultério, o incesto e o infanticídio. Como então podem nos pedir que honremos a tais deuses, se são, sob todas as formas, inferiores a nós?
Por último, acrescenta Taciano, não esqueçamos que muitas das esculturas que os gregos adoram são na realidade estátuas de mulherzinhas e prostitutas a quem os escultores tomaram por modelos. Portanto, os mesmo gregos que criticam os cristãos por serem de baixa classe social, na realidade adoram pessoas dessa mesma classe.
Mas nem todos os cristãos adotavam essa postura totalmente negativa ante a cultura pagã. O exemplo mais claro de uma atitude muito mais positiva em relação a essa cultura nós encontraremos em Justino, o mestre de Tacíano. Justíno é, sem dúvida alguma, o mais distinto pensador cristão dos meados do século 2.
Antes de se tornar cristão, Justino tinha estudado as diversas filosofias que em sua época se ofereciam como sendo as mais acertadas, e havia chegado, por fim, à conclusão de que o cristianismo era "a verdadeira filosofia".
Ao se conver¬ter ao cristianismo, Justino não deixou de ser filósofo, mas dedicou-se a fazer "filosofia cristã", e boa parte dessa filosofia consistia em descobrir e explicar as relações entre o cristianismo e a sabedoria clássica.
Portanto, Justino não nutria, em relação a essa filosofia, os mesmos sentimentos radicalmente negativos de seu discípulo Taciano. Isto não quer dizer, entretanto, que Justino tenha comprometido sua fé, ou que fosse um cristão de escassa convicção, pois, quando chegou o momento de testificar de Cristo diante das autoridades imperiais, ele o fez com toda firmeza e, portanto, a posteridade o conhece com o honroso nome de "Justino, o Mártir".
Justino vê vários pontos de contato entre o cristianismo e a filosofia pagã. Os melhores filósofos, por exemplo, falaram de um ser supremo que se encontra acima de todos os demais seres, e do qual todos derivam sua existência.
Sócrates e Platão sabiam que existe a vida além da morte física. Sócrates mostrou a força dessa crença em sua morte exemplar. Platão também sabia que este mundo não esgota toda a realidade, mas que há outro mundo de realidades eternas.
Em tudo isto, os filósofos tinham razão. Justino não está completamente de acordo com eles, pois ele sabe, por exemplo, que o centro da esperança cristã não é a imortalidade da alma, mas a ressurreição do corpo. Mas, apesar desta e de outras diferenças, há nos filósofos traços da verdade que não é possível explicar como uma mera coincidência.
Como explicar, então, esse acordo parcial entre os filósofos a fé cristã? Justino o explica recorrendo à doutrina do "Logos" O termo grego "logos” quer djzer tanto "palavra" como "razão".
Segundo os filósofos gregos, tudo o que nossa mente consegue compreender o faz porque, de algum modo, participa do "logos" ou razão universal. Por exemplo, se podemos compreender que dois mais dois são quatro, isto se deve ao fato de que, tanto em nossa mente, como no universo, existe um "logos", uma razão, ou ordem, segundo o qual dois mais dois são quatro.
Ora, o que os cristãos crêem é que, em Jesus Cristo, esse Logos — e esta é a palavra que aparece no prólogo do Quarto Evangelho — se fez carne. O que João 1:14 nos diz é que a razão fun¬amental do universo, o verbo, ou palavra (logos) de Deus, se fez carne em Jesus Cristo.
Agora vejamos, o próprio Evangelho de João nos diz que este mesmo verbo, ou logos, é a luz que ilumina a todo aquele que vem a este mundo. Isto quer dizer que ele é a fonte de todo conhecimento verdadeiro, mesmo antes de sua encarnação.
Já Paulo havia dito (1 Co 10:1-4) que os antigos hebreus não tinham crido em outro senão em Cristo, pois de um modo misterioso Cristo lhes fora revelado ainda antes de sua encar¬nação.
Agora, Justino acrescenta que entre os pagãos também houve pessoas que conheceram o mesmo verbo, ou logos, ao menos em parte. O que há de certo nos escritos de Platão, deve-se a que o verbo de Deus — o mesmo verbo que se encarnou em Jesus Cristo — se deu a conhecer. Portanto, em certo sentido, Sócrates, Platão e os demais sábios da antiguidade "eram cristãos", pois sua sabedoria lhes vinha de Cristo, ainda que só conhecessem o verbo parcialmente, enquanto nós, os cristãos, o conhecemos agora tal qual ele é, em virtude de sua encarnação e sua vida entre nós.
Deste modo, Justino abriu o caminho para que o cristianismo pudesse reclamar tudo quanto de bom pudesse encontrar na cultura clássica, apesar de ser uma cultura pagã.
Seguindo sua inspiração, logo apareceram outros cristãos que se dedicaram a construir pontes entre sua fé e a cultura da antiguidade. Mas suas obras - e os perigos que acarretaram — correspondem a outro capítulo desta história.

Os argumentos dos apologistas
Nos parágrafos anteriores, mostramos alguns dos argumentos que os apologistas empregaram para enfrentarem a questão das relações entre sua fé e a cultura que os rodeava.
Agora, ainda que sumariamente, devemos resumir alguns dos elementos com os quais tentaram responder às principais críticas que se faziam às doutrinas do cristianismo.
À acusação de serem ateus, os cristãos respondiam dizendo que, se eles eram ateus, também o haviam sido alguns dos mais famosos filósofos e poetas gregos.
Para fundamentar este argu¬mento, não tinham senão que recorrer a algumas das obras da literatura grega, em que se dizia que os deuses eram invenção humana, que seus vícios eram piores que os que se praticavam na sociedade humana, e outras coisas desse estilo.
Aristides sugere que a razão pela qual os gregos inventaram tais deuses foi para que eles mesmos pudessem dar vazão aos seus mais baixos apetites, tendo nos deuses o exemplo.
Taciano diz que toda a criação foi feita por Deus, por amor a nós e que, portanto, é um erro adorar a uma parte qualquer dessa criação. E, no mesmo sentido, Atenágoras diz: "eu não adoro a um instrumento, mas aquele que produz a música".
Além disso, vários dos apologistas atiram aos rostos dos pagãos que seus deuses são feituras de mãos, e há até alguns que têm necessidade de guardas, para protegê-los de quem, de outro modo, tentaria roubá-los. Que classe de deuses é esta que necessita proteção humana? Que poderes teriam para cuidar de nós?
E quanto a ressurreição, os apologistas respondem apelando à onipotência divina. Com efeito, se cremos que Deus fez todos os corpo do nada, porque não haveríamos de crer que possa reconstruí-los novamente, mesmo depois de mortos e decompostos?
Às acusações de imoralidade, os apologistas respondem a um tempo com uma negativa rotunda e com uma acusação contra o paganismo. Como pensar que em nosso culto se dão orgias e uniões ilícitas, quando nossos princípios de conduta são tais que até mesmos os maus pensamentos devem ser descartados?
São os pagãos que, baseados no que eles mesmos contam de seus deuses, e até às vezes sob pretexto de adorá-los, cometem as mais baixas imoralidades.
E, como pensar que comemos meminos, nós, a quem todo homicídio nos está proibido? São os senhores, os pagãos, os que costumam deixar os filhos indesejados expostos aos elementos, para que ali pereçam de fome e de frio.
Por último, acusavam aos cristãos de serem pessoas subversivas, que se negavam a adorar o imperador e que, portanto, destruíam o próprio vínculo da sociedade.
A tal acusação, os apologistas respondem dizendo que, com efeito, se negam a adorar o imperador. ou qualquer outra criatura. mas que, apesar disto, são súditos leais do Império.
O que o imperador neces¬sita não é ser adorado, mas ser servido, e quem melhor o serve são aqueles que rogam ao único Deus verdadeiro pelo bem-estar do Império e de César.
Em conclusão, mesmo quando se negam a adorá-lo, os cristãos são os melhores súditos com quem o imperador pode contar, pois constantemente apresentam as necessidades do Império ante o trono celestial, e por isso são, como diz o Discurso a Diogneto, "a alma do mundo".
Em resumo, os apologistas dão testemunho da tensão em que vivem os cristãos dos primeiros séculos. Ao mesmo tempo que rejeitam o paganismo, têm de enfrentar o fato de que esse paganismo produziu uma cultura valiosa.
Ao mesmo tempo que aceitam a verdade que encontram nos filósofos, jinsístem na superioridade da revelação cristã. Ao mesmo tempo que se negam a adorar ao imperador, e esse mesmo imperador os persegue, continuam orando por ele e admirando a grandeza do Império Romano.
As seguintes linhas do "Discurso a Diogneto" descrevem admiravelmente essa tensão:
"Os cristãos não se diferenciam dos demais por sua nacionalidade, por sua linguagem, nem por seus costumes (. . .). Vivem em seus próprios lugares, mas como transeuntes, peregrinos. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos, mas sofrem como estrangeiros. Onde quer que estejam, encontram sua pátria, mas sua pátria não está em nenhum lugar (. . .). Se encontram na carne, mas não vivem segundo a carne. Vivem na terra, mas são cidadãos dos céu. Obedecem todas as leis, mas vivem acima daquilo que as leis requerem. Amam a todos, mas todos os perseguem" ("Discurso a Diogneto", 5:1-11).

Um comentário:

Luciano disse...

Olá pastor, o texto de Justo González postado pelo senhor me foi muito util , pois também dou aula de hist. do cristianismo. Porém, devo adverti-lo que o texto postado pelo senhor está na íntegra. Por conta disso o senhor pode ter algum problema.

Fraternalmente,
Luciano Prestes.