terça-feira, 12 de junho de 2007

História da Igreja – Parte 4

(texto extraído e adaptado da obra de Justo L. Gonzales, Uma História Ilustrada do Cristianismo)

O judaísmo da dispersão
Como já falamos na aula anterior, durante os séculos que precederam a primeira vinda de Jesus, houve um número cada vez maior de judeus que viviam fora da Palestina. Alguns desses judeus eram descendentes dos que haviam ido para exílio na Babilónia e, portanto, naquela cidade, como em toda a região da Mesopotâmia e da Pérsia, havia grandes contingentes de judeus.
No época do Império Romano, os judeus haviam se espalhado por diversas razões, e já no século primeiro as colónia judaicas em Roma e em Alexandria eram muitas.
Em quase todas as cidades do Mediterrâneo oriental havia pelo menos uma sinagoga. No Egito, chegou-se até a construir um templo por volta do século VII a.C. na cidade de Elefantina, e houve outro no Delta do Nilo no século II a.C.
Mas, em geral, estes judeus da "Dispersão" ou da "Diáspora" não construíram templos nos quais podiam oferecer sacrifícios, mas antes sinagogas nas quais estudavam as Escrituras.
O judaísmo da Diáspora é de grande importância para a história da igreja cristã, pois foi através dele, como veremos, que mais rapidamente se propagou a nova fé pelo Império Romano. Além disso, esse judaísmo da Diáspora proporcionou à igreja a tradução do Antigo Testamento para grego que foi um dos principais veículos de sua propaganda religiosa.
Este judaísmo se distinguia de seu congênere na Palestina principalmente por duas características > o uso do idioma grego, e seu contato inevitavelmente maior com a cultura helenista.
No século primeiro, eram muitos os judeus, na Palestina, que já não usavam o antigo idioma hebreu. Mas, enquanto que na Palestina e em toda a região do oriente desse país falava-se o aramaico, os judeus que se achavam dispersos por todo o resto do Império Romano falavam o grego.
Depois das conquistas de Alexandre, o grego veio a ser a língua comum da bacia oriental do Mediterrâneo. Judeus, egípcios, cipriotas, e até romanos, utilizavam o grego para se comunicar entre si. Em algumas regiões — especialmente no Egito — os judeus perderam, assim, o uso da língua hebraica, e foi necessário traduzir as Escrituras para o grego.
Essa versão do Antigo Testamento para o grego recebe o nome de "Septuaginta", que se abrevia frequentemente mediante o número romano LXX, conforme vimos no semestre passado. Assim, a importância da Septuaginta foi enorme para a igreja cristã primitiva. Esta é a Bíblia que a maioria dos autores do Novo Testamento cita, e exerceu uma influência muito grande sobre a formação do vocabulário cristão dos primeiros séculos.
Além disso, quando aqueles primeiros crentes se espalharam por todo o Império com a mensagem do evangelho, encontraram na Septuaginta um instrumento útil para sua propaganda.
De fato, o uso que os cristãos fizeram da Septuaginta foi tal e tão efetivo que os judeus se viram obriga¬dos a produzir novas versões - como a de Aquila - e a deixar os cristãos na posse da Septuaginta.
A outra marca distinta do Judaísmo da Dispersão foi o seu inevitável contato com a cultura helenista. Em certo sentido, pode-se dizer que a Septuaginta é também resultado desta situação. Em todo caso, fica claro que os judeus da Dispersão não podiam subtrair-se ao contato com os gentios, como podiam fazer, em certa medida, seus correligionários da Palestina.
Os judeus da Dispersão viam-se obrigados, em consequência, a defender sua fé a cada passo diante daquelas pessoas de cultura helenista para quem a fé de Israel era ridícula, antiquada ou ininteligível.
Diante desta situação, e especialmente na cidade de Alexandria, surgiu entre os judeus um movimento que tratava de mostrar a compatibilidade entre o melhor da cultura helenista e a religião hebraica.
No século III aC., Demétrio narrou a história dos reis de Judá, seguindo os padrões da historiografia pagã. Mas foi na pessoa de Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus, que este movimento alcançou seu ponto alto. Uma vez que os argumentos de Filo — ou outros muito parecidos — foram utilizados depois por alguns cristãos, na própria cidade de Alexandria, vale a pena resumi-los aqui.
O que Filo intenta fazer é mostrar a compatibilidade entre a filosofia platónica e as Escrituras hebraicas. Segundo ele, já que os filósofos eram pessoas cultas, e as Escrituras hebraicas são ante¬riores a eles, é de se supor que qualquer concordância entre ambos se deve a que os gregos copiaram dos judeus, e não vice-versa.
E, então, Filo procura mostrar essa concordância, inter¬pretando o Antigo Testamento como uma série de alegorias que apontam em direção às mesmas verdades eternas a que os filósofos se referem de maneira mais literal.
O Deus de Filo é absolutamente transcendente e imutável, no estilo de "Um deus inefável" dos platónicos. Portanto, para se relacionar com este mundo de realidades transitórias e imutá¬veis, esse Deus faz uso de um ser intermediário, a quem Filo dá o nome de Logos, isto é, Verbo ou Razão.
Este Logos, além de ser um intermediário entre Deus e a criação, é a razão que existe em todo o universo, e da qual a mente humana participa. Em outras palavras, é este Logos que faz com que o universo possa ser compreendido pela mente humana.
Alguns pensadores cristãos adotaram estas ideias propostas por Filo, com todas as suas vantagens e seus perigos.
Como vemos, portanto, em sua dispersão por todo o mundo romano, em sua tradução da Bíblia, e ainda em seus intentos de dialogar com a cultura helenista, o judaísmo havia preparado o caminho para o advento e a disseminação da fé cristã. Dai a expressão plenitude do tempo.

Um comentário:

Hermes Silva disse...

Gostei, uma narrativa objetiva, concisa, sem os rodeios dos textos dispersivos, parabéns ao Pr. Pedro!