terça-feira, 12 de junho de 2007

História da Igreja - Parte 10

O impacto de Constantino
(texto extraído e adaptado da obra de Justo L. Gonzales, Uma História Ilustrada do Cristianismo)
Do Sol Invicto para Jesus Cristo

Muito já foi escrito e discutido sobre a conversão de Constantino. Pouco depois de ela ter acontecido houve escritores crístãos, como veremos mais adiante, que quiseram mostrar que esta conversão era o ponto culminante de toda a história da igreja.
Outros têm dito que Constantino não passava de um político hábil que percebeu que poderia obter vantagens com uma "conversão", e que por isso decidiu atrelar seu carro à causa do cristianismo.
As duas interpretações são exageradas. Basta ler os documentos da época para vermos que a conversão de Constantino foi bem diferente da conversão comum de um cristão.
Quando algum pagão se convertia ele era submetido a um longo processo de disciplina e ensino, para ter certeza de que o novo convertido entendia e vivia sua nova fé, e então ele era balizado. O novo convertido, então, seguia seu bispo como guia e pastor, para descobrir o significado da sua fé nas situações concretas da vida.
O caso de Constantino foi bem diferente. Durante toda a sua vida, Constantino nunca se submeteu em nenhum aspecto à autoridade pastoral da igreja. Ele contava com o conselho de cristãos, como o eru¬ito Lactâncio — tutor de seu filho Crispo — e o bispo Ôsio de Córdoba — seu conselheiro para assuntos eclesiásticos — mas Constantino sempre se reservou o direito de determinar ele mesmo suas atitudes religiosas, pois considerava-se "bispo dos bispos".
Repetidamente, mesmo depois da sua conversão, Constantino participou de rituais pagãos que eram proibidos aos cristãos comuns, e os bispos não levantaram a voz em protesto e condenação, como teriam feito em qualquer outro caso.
O que acontecia não era somente que Constantino era uma pessoa ao mesmo tempo poderosa e irascível. O imperador também, apesar da sua política cada vez mais favorável aos cristãos e das suas afirmações de crer no poder de Jesus Cristo, tecnica¬mente pelo menos não era cristão, pois não tinha se submetido ao batismo.
Constantino, de fato, só foi batizado no seu leito de morte. De maneira que qualquer política ou edito em favor dos cristãos, da parte do imperador, era recebido pela igreja como um favor feito por um amigo ou simpatizante.
E qualquer deslize religioso de Constaníino era encarado da mesma perspectiva, como sendo a ação de alguém que não fazia parte do grupo dos fiéis, ainda que fosse simpatizante deles.
Uma pessoa assim podia receber conselhos da igreja, mas nunca sua direção ou condenação. Esta situação se encaixava perfeitamente nos propósitos de Constantino, e por isso ele teve o cuidado de so¬mente se deixar batizar no leito de morte.
Por outro lado, os que acham que Constantino se con¬verteu simplesmente por oportunismo político estão equivo¬cados, por diversas razões. A primeira delas é que esta interpretação é anacrônica demais, isto é, alheia aos costumes daquela época.
Até onde sabemos, ninguém em toda a antiguidade se acercou da questão religiosa com o oportunismo político que tem sido característico da idade moderna.
Para os antigos, os deuses eram realidades bem concretas, e mesmo os mais céticos temiam e respeitavam os poderes sobrenaturais. Por isso, pensar que Constantino foi hipócrita ao se declarar cristão, sem crer de fato em Jesus Cristo, é um anacronismo.
A segunda razão é que, na verdade, do ponto de vista puramente político, a conversão de Constantino aconteceu no pior momento possível. Quando Constantino adotou o labarum por emblema (estandarte dos exércitos romanos), ele estava se preparando para lutar pela cidade de Roma, centro das tradições pagãs, onde seus principais aliados eram os membros da velha aristocracia pagã, que se consideravam oprimidos por Majêncio.
A maior força numérica do cristianismo não estava no Ocidente, onde governava Constantino e onde ele lutava contra Majêncio, mas no Oriente, para onde sua atenção seria dirigida somente anos mais tarde. Por último, a opinião oportunista é equivocada porque o grau de apoio que os cristãos poderiam ter prestado a Constantino era muito duvidoso. A igreja sempre tivera dúvidas sobre se os cristãos poderiam prestar serviço militar, e por isso o número de cristãos no exército era pequeno.
Entre a população civil, a maioria dos cristãos fazia parte da classe baixa, que não poderia dar muito apoio financeiro às intenções de Constantino. E, de qualquer forma, depois de quase três séculos de medo do Império, ninguém poderia predizer qual seria a reação dos cristãos diante do fenómeno inesperado de um imperador cristão.
O mais certo, parece, que Constantino cria mesmo no poder de Jesus Cristo. Mas esta afirmação não implica em que o imperador entendesse sua nova fé como os muitos cristãos que tinham entregue sua vida por ela a entendiam.
Para Constantino, o Deus dos cristãos era um ser extremamente poderoso, que estava disposto a ajudá-lo sempre e quando ele favorecesse os seus fiéis.
Quando Constantino, portanto, começou a construir igrejas e a proclamar leis favoráveis ao cristianismo, ele não estava tanto buscando o favor dos cristãos, mas o do seu Deus.
Este Deus lhe tinha dado a vitória em Ponte Mílvio, e muitas outras batalhas que se seguiram. Em certo sentido, a fé de Constantino era semelhante à de Licínio, que disse aos seus soldados que o labarum de Constantino possuía certo poder sobrenatural, e que todos deveriam temê-lo.
A diferença era que Constantino tinha se apropriado desse poder, servindo a causa dos cristãos. Esta interpretação encontra apoio nas declarações do próprio Cons¬tantino que a história conservou, que nos mostram um homem sincero, cuja compreensão do evangelho era reduzida.
Constantino interpretava a fé em Jesus Cristo de uma ma¬neira que não o impedia de adorar a outros deuses. Seu pai já tinha sido devoto do Sol Invicto. Este era um culto ao Deus Supremo, cujo símbolo era o sol, mesmo não negando a existência de outros deuses.
Parece que Constantino, durante boa parte da sua carreira política, pensou que o Sol Invicto e o Deus dos cristãos eram o mesmo ser, e que os outros deuses também eram reais e relativamente poderosos, apesar de serem divindades subalternas.
Por essa razão Constantino podia consultar o oráculo de Apoio, aceitar o título de sumo sacerdote dos deuses tradicionalmente conferido aos imperadores, e participar de cerimónias pagãs de todos os tipos sem pensar com isso estar traindo ou abandonando o Deus que lhe tinha dado a vitória e o poder.
Além disso Constantino era um político hábil. Ele tinha tanto poder que podia favorecer os cristãos, construir igrejas, e até se apossar de algumas imagens de deuses para mandá-las para Constantinopla.
Mas, se ele quisesse suprimir todo o culto pagão, o imperador imediatamente teria de enfrentar uma opo¬sição irresistível. Os velhos deuses não estavam totalmente esquecidos. A velha aristocracia e as extensas zonas rurais ainda não tinham sido penetradas pela pregação cristã. No exército havia muitos seguidores de Mitras e de outros deuses. A Academia de Atenas e o Museu de Alexandria, os dois grandes centros de estudo da época, se dedicavam ao ensino da velha sabedoria pagã.
Querer suprimir tudo isso através de um man¬dato imperial era impossível — ainda mais porque o imperador não via nenhuma contradição entre o culto ao Sol Invicto e a fé cristã.
E a política religiosa de Constantino seguiu um processo lento, mas constante. O mais provável é que isso não foi causado somente por exigência das circunstâncias, mas também por um progresso interno no próprio Constantino, à medida que ele deixava atrás de si a velha religião e compreendia melhor o alcance da nova.
No começo Constantino se limitou a garantir a paz da igreja, e a lhe devolver as propriedades que tinham lido confiscadas durante a perseguição. Pouco depois ele começou a apoiar a igreja mais decididamente, como por exemplo, doando-lhe o palácio de Latrão, em Roma, que pertencia à família de sua esposa, e ordenando que os bispos que se dirigiam para o sínodo de Aries, em 314, utilizassem os meios de trans¬porte imperiais, sem nenhum ónus para a igreja.
Ao mesmo tempo, entretanto, ele tentava manter boas relações com os devotos dos cultos antigos, e particularmente com o Senado romano. O Império oficialmente era pagão, e correspondia a Constantino, como cabeça do Império, o título de sumo sacerdote.
Negar-se a aceitá-lo seria rejeitar de chofre todas as antigas tradições do Império -- e Constantino não estava disposto a tanto. Até o ano 320 as moedas de Constantino, frequentemente, apresentavam os símbolos e os nomes dos velhos deuses, se bem que muitas já continham também o monograma de Cristo.
A campanha contra Licínio deu a Constantino uma nova oportunidade de aparecer como o campeão do cristianismo. Era precisamente nos territórios que antes tinham pertencido a Licínio que a igreja era numericamente mais forte. Por isto Constantino pôde nomear vários cristãos para cargos elevados na máquina administrativa do governo, e até pareceu que ele favorecia os cristãos, em detrimento dos pagãos.
Ao mesmo tempo suas desavenças com o Senado romano aumentavam, sendo que este inclusive empreendeu uma campanha para reavivar a antiga religião, de modo que Constantino se sentiu cada vez mais inclinado a favorecer os cristãos.
Em 324, uma ordem imperial determinou que todos os soldados adorassem o Deus supremo no primeiro dia da semana. Este era o dia em que os cristãos celebravam a ressurreição do seu Senhor, mas era também o dia dedicado ao culto do Sol Invicto, e por isso os pagãos não podiam se opor a esse edito.
No ano seguinte, 325, reuniu-se em Nicéia a grande assembléia de bis¬pos conhecida como o primeiro concílio ecuménico, de que falaremos mais à frente. Essa assembleia foi convocada por Constantino, e os bispos viajaram às expensas do tesouro imperial.
A fundação de Constantinopla foi um passo adiante nesse processo. Já o fato de criar uma "nova Roma" em si era uma tentativa de fugir do poder das velhas famílias pagãs da aristocracia romana. Mas principalmente a política de utilizar os tesouros artísticos dos templos pagãos para a construção de Constantinopla fez com que o velho paganismo, até então rodeado de riquezas e pompa, ficasse cada vez mais pobre.
É verdade que durante o governo de Constantino foram construídos e restaurados alguns templos pagãos. Em termos gerais, porém, os santuários pagãos perderam muito do seu esplendor, ao mesmo tempo que eram construídas enormes e suntuosas Igrejas cristãs.
Apesar de tudo isso, até quase o fim dos seus dias Constantino continuou se comportando como o sumo sacerdote do paganismo. Quando ele morreu, seus três filhos, que lhe sucederam, não se opuseram ao desejo do Senado de divinizá-lo, e assim surgiu o fato bizarro de que Constantino, que tanto tinha feito de mal ao culto pagão, passou a ser um dos seus deuses.
O impacto de Constantino
O impacto da conversão de Constantino sobre a vida da igreja foi tão grande que se fará sentir durante toda a narrativa da história do cristianismo, até os nossos dias.
Por isso, o que importa aqui não é tanto mostrar as últimas consequências desse acontecimento, mas suas consequências imediatas, durante o quarto século.
Naturalmente, a consequência mais imediata e notável da conversão de Constantino foi o fim das perseguições. Até então os cristãos tinham vivido em constante temor de uma nova perseguição, mesmo em tempos de relativa paz.
Depois da conversão de Constantino, esse temor se dissipou. Os poucos governantes pagãos, que vieram depois dele, não perseguiram os cristãos, somente tentaram restaurar o paganismo por outros meios.
Tudo isso produziu, em primeiro lugar, o desenvolvimento do que poderíamos chamar de uma "teologia oficial". Deslumbrados com o favor que Constantino evidenciava em relação a eles, não faltaram cristãos que se empenharam em provar que Constantino era um eleito de Deus, e que sua obra era a consu¬mação da história da igreja.
Um caso típico dessa atitude foi Eusébio de Cesaréia, o historiador que não deve ser confundido com Eusébio de Nicomédia, e a quem dedicaremos uma parte do nosso estudo.
Outros seguiram um caminho radicalmente oposto. Para eles o fato de o imperador se declarar cristão, e que agora era mais fácil ser cristão, não era uma bênção, mas o começo de uma grande apostasia.
Algumas pessoas que mantinham esta atitude, mas que não queriam deixar a comunhão da igreja, se retiraram para o deserto, onde se dedicavam à vida ascética.
Como já não era mais possível ser martirizado, estas pessoas pensavam que o verdadeiro atleta de Jesus Cristo deveria con¬tinuar se exercitando pelo menos para a vida monástica. De maneira que o século quarto viu um grande êxodo para os deser¬tos do Egito e da Síria. Trataremos deste movimento monástico em aulas futuras.
Alguns dos que não viam com agrado a nova aproximação entre a igreja e o estado, simplesmente romperam a comunhão com os demais cristãos. Estes são os cismáticos, de quem falaremos também mais à frente.
Entre os que permaneceram na igreja, não se retirando para o deserto, nem optando pelo cisma, logo surgiu um grande despertamento intelectual. Como em todas as épocas de atividade intelectual, não faltaram os que propuseram teorias e doutrinas que o restante da igreja se viu obrigado a rejeitar.
A principal dessas doutrinas foi o arianismo, que deu lugar a controvérsias acaloradas sobre a doutrina da Trindade. Discutiremos depois essas controvérsias até o ano 361, em que Juliano foi proclamado imperador.
O reinado de Juliano foi o ponto culminante de outra atitude provocada pela conversão de Constantino: a reação pagã! O reinado de Juliano será visto em outra oportunidade.
A maioria dos cristãos, todavia, não reagiu à nova situação, nem com aceitação total, nem com rejeição absoluta. Para a maior parte dos líderes da igreja, as novas circunstâncias traziam consigo oportunidades inesperadas, mas também enormes perigos.
Por isso, ao mesmo tempo que confirmavam sua lealdade para com o imperador, como sempre o tinham feito, a maioria dos cristãos insistia em que sua lealdade final cabia somente a Deus.
Esta foi a atitude dos "gigantes" da igreja — Atanásio, os capadócios, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e outros. Tanto as oportunidades como os perigos eram grandes, e por isso essas pessoas enfrentaram uma tarefa difícil.
Naturalmente não podemos dizer que suas atitudes e soluções foram sempre corretas. Mas dada a magnitude da tarefa que se propuseram, e dado também o impacto que sua obra teve sobre a igreja através dos séculos, temos razões de sobra para chamar o século IV — e o começo do V — de "a era dos gigantes".
Mas, antes de concluir, temos de mencionar algumas mudanças que ocorreram como resultado da conversão de Constantino. Referimo-nos às mudanças relacionadas com o culto.
Até a época de Constantino, o culto cristão tinha sido rela¬tivamente simples. No princípio, os cristãos se reuniam para adorar em casas particulares. Depois começaram a se reunir tam¬bém em cemitérios, como as catacumbas romanas.
No século terceiro já havia lugares dedicados especificamente para o culto. A igreja mais antiga descoberta até agora é a de Dura-Europos, que data aproximadamente do ano 270. Mas também essa igreja de Dura-Europos não passa de uma pequena habitação, decorada somente com algumas pinturas murais de caráter quase primitivo.
Depois da conversão de Constantino, o culto cristão começou a sentir a influência do protocolo imperial. O incenso, que até então tinha sido sinal do culto ao imperador, apareceu nas Igrejas cristãs. Os ministros que oficiavam no culto começaram a usar vestimentas ricamente ornamentadas, em sinal de respeito pelo que estava tendo lugar.
Pela mesma razão vários gestos de respeito normalmente feitos diante do imperador começaram a surgir também no culto. Além disso «pareceu o costume de iniciar-se o culto com uma procissão. Para dar mais destaque a esta procissão surgiram os coros, com o resultado, a longo prazo, de que a congregação participava cada vez menos do culto.
Por outro lado, as igrejas construídas no tempo de Constantino e dos seus sucessores contrastavam com a simplicidade da de Dura-Europos. O próprio Constantino mandou construir em Constantinopla a igreja de Santa Irene, em honra à paz. Helena, sua mãe, construiu na Terra Santa a igreja da Natividade e a do Monte das Oliveiras.
Ao mesmo tempo, ou por ordem do imperador, ou seguindo seu exemplo, foram construídas igrejas semelhantes nas principais cidades do Império. Essa política continuou sob o governo dos sucessores de Constantino. Quase todos eles tentaram perpetrar sua memória, construindo igrejas pomposas.
Apesar de quase todas as igrejas construídas por Constantino e seus sucessores mais imediatos terem desaparecido, restam suficientes documentos por escrito e restos arqueológicos para formarmos uma ideia da planta comum desses templos.
E como o padrão estabe¬lecido no século IV perdurou por muito tempo, outras igrejas posteriores, que existem até os dias de hoje, ilustram o estilo arquitetônico da época.
Algumas dessas igrejas tinham o altar no centro, e eram construídas sobre um alicerce poligonal ou quase redondo. A forrma típica das igrejas de então, porém, é a chamada "basí¬lica". Esse termo já era usado muito tempo antes para designar os grandes edifícios públicos — ou, às vezes, privados — que consistiam principalmente de um grande salão com duas ou mais filas de colunas. Como estes edifícios serviram de modelo para as igrejas construídas nos séculos quarto e seguintes, estas rtceberam o nome de "basílicas".
Tudo isto nos serve de exemplo do que estava acontecendo por causa da conversão de Constantino. A antiga igreja continuava seus costumes tradicionais. A ceia ainda era o principal ato de adoração, celebrada pelo menos todos os domingos.
Mas tudo assumia um outro aspecto, por causa da nova situação. Por isso o grande desafio que os cristãos tinham de enfrentar naquela época era até que ponto e como eles deveriam adaptar seus hábitos e costumes às novas circunstâncias. Todos concordavam em que certo grau de adaptação era necessário, pois os novos tempos requeriam novas formas de viver e de comunicar o evangelho. Todos também concordavam com que essa adaptação não deveria causar o abandono da fé tradicional da igreja. O ponto em que não havia concordância era o grau de equilíbrio que esses elementos deveriam conservar.
Nas aulas seguintes veremos vários exemplos de resposta que os cristãos do século IV deram a esse grande desafio trazido pela nova situação.

2 comentários:

cmc disse...

Obrigado pastor pelas aulas sobre História da Igreja; estou utilizando-as para estudo e maior conhecimento sobre a igreja.
Que Deus continue abençoando o senhor!

mauricio alves disse...

Excelente!!