quinta-feira, 28 de junho de 2007

Hiatória da Igreja - 17

A Era dos Reformadores
Parte 4
Uma Década de Incertezas
Ao queimar a bula papal, Lutero estava se declarando em rebeldia contra as autoridades eclesiásticas. Em Worms, ao negar a se retratar, mostrou-se igualmente firme diante do poder do imperador. Este não estava disposto a permitir que um frade rebelde o desobedecesse e, portanto, se preparou para acrescentar a condenação civil à eclesiástica de que Lutero já fora objeto. Entretanto, isso não se tornou tão fácil, porque vários dos principais membros da dieta se opuseram ao imperador. Mas quando, finalmente, forçada pelo imperador, a dieta promulgou o edito que citamos no início, Lutero já se encontrava a salvo no castelo de Wartburgo.


O Exílio de Wartburgo
O que havia sucedido era que Frederico, o Sábio, inteirado de que o imperador forçaria a dieta a condenar Lutero, tinha-o colocado a salvo. Um grupo de homens armados, debaixo de instruções de Frederico, sequestrou o frade e levou-o até Wartburgo. Devido às suas próprias instruções, nem o próprio Frederico sabia onde o tinham escondido. Muitos o deram por morto, e corriam rumores de que fora morto por ordem do papa e do imperador.
Escondido em Wartburgo, Lutero deixou crescer sua barba, escreveu a alguns de seus colaboradores mais íntimos, dizendo-lhes que não temessem por seu paradeiro e dedicou-se a escrever. De todas as suas obras nesse período, nenhuma é tão importante quanto a tradução da Bíblia. O Novo Testamento, começado em Wartburgo, foi terminado dois anos mais tarde, e o Antigo Testamento demorou mais de dez (10) anos. Pela importância da obra, bem valia o tempo empregado nela, pois a Bíblia de Lutero, além de dar um novo ímpeto ao Movimento Reformador, deu forma ao idioma e, portanto, à nacionalidade alemã.
Enquanto Lutero estava no exílio, vários de seus colaboradores se ocuparam em continuar o trabalho reformador em Wittenberg. Deles, os mais destacados foram Carlstadt e Felipe Melanchthon, um jovem professor de grego, de temperamento muito diferente de Lutero, porém convencido das opiniões de seu colega. Até então, a reforma que Lutero havia preconizado não tomara forma concreta na vida religiosa de Wittenberg. Lutero era um homem tão temente a Deus que tinha vacilado em dar os passos concretos que seguiam sua doutrina. Porém agora, na sua ausência, estes passos foram dados rapidamente, um após o outro. Muitos monges e freiras deixaram seus conventos e se casaram. O culto foi simplificado e começou-se a usar o alemão ao invés do latim. Aboliram as missas pelos mortos. Cancelaram os dias de jejum e abstinência. Melanchthon começou a oferecer a comunhão de ambos os modos, isto é, deu o cálice aos leigos.
No princípio Lutero viu tudo isso com agrado. Porém, logo começou a ter dúvidas sobre o que estava acontecendo em Wittenberg. Quando Carlstadt e vários de seus seguidores se dedicaram a derrubar imagens. Lutero lhes aconselhou moderação. Então apareceram em Wittenberg três leigos procedentes da vizinha Zwickau, que diziam ser profetas. Segundo eles, Deus lhes falava diretamente e não tinham necessidade das Escrituras. Melanchthon não sabia o que responder a tais pretensões e pediu conselho ao exilado em Wartburgo.
Por fim Lutero decidiu que o que estava em jogo era nada menos que o evangelho e regressou a Wittenberg. Antes de dar esse passo, levou-o ao conhecimento de Frederico, o Sábio, porém deixando claramente que não esperava sua proteção, mas que confiava unicamente em Deus, em cujo serviço estava envolvido.

As Circunstâncias Políticas
Mesmo que Lutero não tivesse feito cálculos nesse sentido, o fato é que a razão pela qual Frederico pôde mante-lo escondido no castelo de Wartburgo, e a razão pela qual ele mesmo pôde regressar a Wittenberg sem ser preso e morto, foi a condição política do momento.
Carlos V estava disposto a arrancar pela raiz a "heresia" luterana. Porém ele se via ameaçado por outros inimigos mais poderosos. No meio de tais circunstâncias, o Imperador não poderia permitir-se ao luxo de molestar seus súditos alemães com a causa de quem lhe parecia ser um frade cabeçudo.
O grande inimigo de Carlos V era Francisco l, da Franca. Este rei, que no princípio de seu reinado tinha sido, sem dúvida alguma, o monarca mais poderoso da Europa, via com desgosto o crescente poder do rei da Espanha e Imperador da Alemanha. Pouco antes da dieta de Worms, os dois rivais haviam-se esbarrado em Navarra. Foi nesse encontro que Inácio de Loyola recebeu o germe que posteriormente faria dele o grande reformador católico. Durante o mesmo ano de 1521, e até o de 1525, Carlos V se viu envolvido em guerras quase constantes com Francisco l. E ao final, na batalha de Pávia, o rei da França caiu prisioneiro das tropas imperiais, e o conflito pareceu chegar ao fim.
Nesse meio tempo, somente uns meses depois da dieta de Worms, Leão X havia morrido, e Carlos V tinha feito eleger como papa o seu tutor, Adriano de Utrecht, que tomou o nome de Adriano VI. Esse papa, ao mesmo tempo que desejava reformar a igreja, não estava disposto a que se discutissem suas doutrinas. Portanto, implantou em Roma uma vida austera e começou uma reforma que teria tido bom êxito, se não fosse eclipsada pela que havia começado na Alemanha. Mas Adriano morreu um ano e meio depois de ter sido feito papa, e suas reformas não deixaram raízes. Seu sucessor, Clemente VII, era um homem muito parecido com Leão X, mais interessado na arte e na política italiana que nos assuntos da igreja. E por isso logo houve desentendimentos entre o Imperador e o novo papa.
Carlos V firmou em Madrid um tratado de paz com seu prisioneiro Francisco e, com base nesse tratado, colocou-o em liberdade. Todavia, o que fora estipulado na paz de Madrid era demasiado oneroso e até vergonhoso para a França e, assim, rapidamente Francisco fez com Clemente VII um pacto contra Carlos V. Este último cria poder contar com a ajuda da França e do papado para extirpar a heresia luterana e para deter o avanço dos turcos, mas inesperadamente seus dois supostos aliados lhe declararam guerra.
Em 1527, as tropas imperiais, compostas na maioria de espanhóis e alemães, invadiram a Itália e se dirigiram para Roma. A cidade pontifícia estava indefesa, e o papa teve de refugiar-se no castelo de São Angelo enquanto os invasores saqueavam a cidade. Visto que muitos deles eram luteranos, para eles o saque tomou cores religiosas: era Deus que finalmente tomava vingança contra o anti-cristo. A situação do papa era desesperadora quando, no princípio de 1528, um exército francês, com o apoio econômico da Inglaterra, foi socorrê-lo. As tropas imperiais viram-se obrigadas a recuar, e teriam sido aniquiladas, mas uma epidemia forçou os franceses abandonarem a luta. Em 1529, Carlos V conseguiu firmar a paz, primeiro com o papa e depois com o rei da França.
Depois de tudo, Carlos V parecia estar livre para enfrentar-se com o luteranismo, quando uma nova ameaça obrigou-o a retardar essa ação mais uma vez. Os turcos, sob o comando de Soleimán lançaram-se sobre Viena, a capital das possessões austríacas do Imperador. Diante dessa ameaça, todos os alemães se uniram, e a questão religiosa foi deixada de lado. Viena defendeu-se valentemente, e Soleimán foi obrigado a levantar o sítio quando soube que o exército alemão se aproximava.
Foi então que, depois de longa ausência, Carlos V regressou à Alemanha. Um dos seus principais projetos era acabar com o luteranismo. Porém durante esse tempo todo, haviam ocorrido na Alemanha acontecimentos de grande importância.

As Rebeliões dos Nobres e dos Camponeses
Em 1522 e 1523, a baixa nobreza tinha-se sublevado, sob a direção de Franz von Sickingen. Durante muito tempo essa classe tinha visto desaparecer sua fortuna, e muitos de seus membros culpavam Roma por isso. Entre esses cavaleiros, sem terras e sem dinheiro, o nacionalismo era fortíssimo. Muitos se somaram aos seguidores de Lutero, em quem viam o campeão nacional. Alguns, como Ulrico von Hutten, estavam convencidos da verdade da pregação de Lutero, ainda que quisessem levá-la mais longe. Quando por fim os cavaleiros se rebelaram e atacaram Tréveris, foram derrotados decisivamente pelos príncipes que aproveitaram essa conduta para apoderar-se das poucas terras que os pequenos nobres ainda possuíam. Sickingen morreu em combate, e Hutten se exilou na Suíça, onde morreu pouco depois. Tudo isso foi visto por Lutero e seus colegas mais próximos como uma grande tragédia, e uma prova mais do que necessária de se submeter às autoridades civis.
Pouco depois, em 1525, estourou a rebelião dos campo¬neses. Estes tinham sofrido por várias décadas uma opressão sempre crescente, e já haviam ocorrido rebeliões em 1476,1491, 1498, 1503 e 1514. Porém nenhuma delas teve a magnitude da de 1525.
Nesta nova rebelião, um fator veio somar-se às demandas econômicas dos camponeses. Esse novo fator foi a pregação dos reformadores. Mesmo que Lutero não cria que sua pregação devesse ser aplicada em termos políticos, houve muitos que não estiveram de acordo com ele nesse ponto. Um deles foi Tomás Muntzer, natural de Zwickau, cujas primeiras doutrinas se pareciam muito com a dos profetas de Zwickau. Segundo ele, o que importava não era o texto das Escrituras, mas sim a revelação presente do Espírito Santo. Porém esta doutrina espiritualista tinha um aspecto altamente político, pois Munt¬zer cria que quem fosse nascido de novo por obra do Espírito devia unir-se em uma comunidade teocrática, para trazer o reino de Deus. Lutero havia obrigado Muntzer a abandonar a região, porém o fogoso pregador regressou e uniu-se à rebelião dos camponeses.
Mesmo à parte de Muntzer, esta nova rebelião tinha um tom religioso. Em seus "doze artigos", os camponeses apresentavam várias demandas econômicas, mas outras eram religiosas. Porém tratavam de baseá-las todas nas Escrituras, e seu último artigo declarava que, caso fosse provado que algum de seus pedidos era contrário às Escrituras, ele seria retirado. Assim, mesmo que Lutero não tenha visto essa relação, têm razão os historiadores que dizem que a rebelião dos camponeses se deve em boa parte à pregação de Lutero e seus seguidores.
Em todo caso, Lutero não sabia como responder a essa nova situação. Possivelmente sua doutrina dos dois reinos era mais difícil de entender do que praticar. Quando primeiramen¬te leu os "Doze Artigos", se dirigiu aos príncipes, dizendo-lhes que o que se pedia era justo. Mas quando a rebelião tomou forma, e os camponeses se armaram, Lutero tratou de dissuadi-los e posteriormente instou aos príncipes que tomas¬sem medidas repressivas. Ainda, depois, quando a rebelião foi sufocada no sangue, o Reformador exigiu dos príncipes misericórdia para com os vencidos. Mas suas palavras não foram ouvidas, e calcula-se que mais de 100.000 camponeses foram mortos.
As consequências de tudo isso foram também funestas para a causa da Reforma. Os príncipes católicos culparam o luteranismo pela rebeldia e, a partir de então, proibiram todo intento de se pregar a reforma em seus territórios. E quanto aos camponeses, muitos deles abandonaram o luteranismo e regressaram a velha fé, ou se tornaram anabatistas.

O Rompimento com Erasmo
Enquanto a Alemanha se via sacudida por todos estes acontecimentos, os católicos moderados se viram obrigados a tomar partido entre Lutero e seus opositores. O mais famoso dos humanistas, Erasmo tinha visto com simpatia o começo da reforma luterana, porém a discórdia que tinha surgido dela lhe repugnava. Por muito tempo Erasmo evitou declarar-se contra Lutero, pois seu espírito pacífico odiava as controvérsias. Po¬rém, no fim a pressão foi tal que não era possível evitar o rompimento com um ou outro lado. Erasmo tinha sido sempre bom católico, mesmo que lhe doesse ver a ignorância e a corrupção do clero. Portanto, quando se viu obrigado a decidir, não havia outra alternativa senão optar pela religião tradicional.
Em vez de atacar Lutero no que se referia às indulgências, o sacrifício da missa, ou a autoridade do papa, Erasmo escolheu como campo de batalha a questão do livre arbítrio. Sua doutrina da justificação pela fé, que é dom de Deus, e seus estudos de Agostinho e São Paulo, tinham levado Lutero a afirmar a doutrina da predestinação. Neste ponto, Erasmo atacou-o com um tratado sobre o livre arbítrio.
Lutero respondeu com sua veemência característica, embora agradecesse a Erasmo o haver centralizado a polémica num assunto tão fundamental, e não sobre questões periféricas tais como a venda das indulgências, ou as relíquias dos santos. Para Lutero, a idéia do livre arbítrio humano que tinham os filósofos, e que era comum entre os moralistas da sua época, não se precavia do poder do pecado. O pecado humano é tal que não temos poder algum para nos livrar dele. Só mediante a ação de Deus podemos ser justificados e libertos do poder do maligno. E, mesmo assim continuamos sendo pecadores. Portanto, nossa vontade nada pode por si mesma quando se trata de servir a Deus.
Essa controvérsia entre Lutero e Erasmo com respeito ao livre arbítrio fez com que muitos humanistas abandonassem a causa luterana. Outros, como Felipe Melanchthon, continuaram apoiando Lutero mesmo sem romper suas relações cor¬diais com Erasmo. Porém esses eram poucos e, pode-se dizer, portanto, que a polémica sobre o livre arbítrio marcou o rompimento definitivo entre a reforma luterana e a humanista.

As Dietas do Império
Enquanto tudo isso acontecia e, na ausência do Imperador, era necessário seguir governando o Império. Visto que Carlos V teve de ausentar-se imediatamente depois da dieta de Worms, e que o edito dessa dieta havia sido obra sua, a Câmara Imperial que governava em seu lugar não tratou de aplicá-lo. Quando se reuniu de novo a dieta em Nuremberg, em 1523, foi adotada uma política de tolerância para com o luteranismo, apesar dos protestos dos legados do papa e do Imperador.
Em 1526, quando Carlos V viu-se obrigado a enfrentar de uma só vez o papa e o rei da França, a dieta de Spira declarou que, devido às novas circunstâncias, o edito de Worms não era válido, e que, portanto, cada estado tinha liberdade de seguir o curso religioso que sua consciência ditasse. Vários dos territórios do Sul da Alemanha e mais a Áustria, optaram pela fé católica, todavia, muitos outros preferiram a luterana. A partir daí, a Alemanha foi transformada num mosaico religioso.
Em 1529, a segunda dieta de Spira tomou um curso muito distinto. Naquele momento o Imperador era mais poderoso e vários príncipes que antes tinham sido moderados passaram para o lado católico. Ali se reafirmou o edito de Worms. Foi então que os príncipes luteranos protestaram formalmente e, por isso, a partir desse momento, começaram a chamá-los "protestantes".
Finalmente, Carlos V regressou à Alemanha em 1530, para a celebração da dieta de Augsburgo. Na dieta de Worms, o Imperador não tinha desejado ouvir sobre o que tratava o debate. Porém agora, tendo em vista o curso dos acontecimentos, pediu que lhe apresentassem uma exposição ordenada dos pontos em discussão. Esse documento, preparado primeiramente por Melanchthon, é o que se conhece como a "Confissão de Augsburgo". No princípio representava somente os protestantes da Saxônia. Mas, pouco a pouco, outros foram firmando-o e logo chegou a servir para apresentar ao Imperador uma frente quase que totalmente unida (havia outras duas confissões minoritárias que não concordavam com esta da maioria dos protestantes).
Novamente, o Imperador encolerizou-se e deu aos protestantes um prazo até abril do ano seguinte para se retratarem.

A União de Esmalcalda
Uma vez mais, o protestantismo estava ameaçado de morte. Se o Imperador reunisse seus recursos espanhóis aos dos príncipes alemães católicos, não seria difícil arrasar com qualquer dos príncipes protestantes e impor o catolicismo em seus territórios. Diante dessa ameaça, os governantes dos territórios protestantes se reuniram para tomar uma ação conjunta. Depois de muito vacilar, Lutero chegou à conclusão de que era lícito pegar as armas em defesa própria contra o Imperador. Os territórios protestantes formaram então a União de Esmalcalda, cujo propósito era fornecer resistência ao edito imperial, se Carlos V decidisse impô-lo pelas armas.
A luta prometia ser longa e custosa, quando uma vez mais a política internacional obrigou Carlos V a adiar toda a ação contra os protestantes. Francisco l se preparava de novo para a guerra, e os turcos davam mostras de querer vingar o fracas¬so da campanha anterior. Sob tais circunstâncias, Carlos V tinha que contar com o apoio de todos os seus súditos alemães. Assim, começaram as negociações entre protestantes e católicos e se chegou, finalmente, à paz de Nuremberg, firmada em 1532.
Segundo esse acordo, era permitido aos protestantes continuar com sua fé, porém estaria proibido a eles estendê-la a outros territórios. O edito Imperial de Augsburgo seria suspenso, e os protestantes ofereciam ao Imperador seu apoio contra os turcos, ao mesmo tempo que se comprometiam a não ir além da Confissão de Augsburgo.
Como antes, as condições políticas tinham operado em prol do protestantismo, que continuava estendendo-se para novos territórios, apesar do que fora firmado em Nuremberg.

Um comentário:

josé marques disse...

CORONEL/PASTOR , PUBLIQUE ALGO SOBRE O FATO DE TEREM SIDO OS MAÇONS ,OS INICIADORES DA REFORMA PROTESTANTE,POIS QUANDO DESCOBRI ISTO , FIQUEI SEM ACREDITAR EM IGREJA MAIS NENHUMA .POIS PASTORES ,QUE ,NO PÚLPITO DEFENDEM E PREGAM A JESUS , SÃO OS MESMOS QUE O NEGAM NA MAÇONARIA (VIDE A HISTÓRIA DO MACKENZE) , PELO MOTIVO DE SEMPRE : GRANINHA QUENTINHA NO BOLSO SANTO.
GRATO .jms3000@bol.com.br