quarta-feira, 13 de junho de 2007

História da Igreja - Parte 14

A Era das Trevas - continuação

O papado
Foi durante a "era das trevas" que o papado começou a surgir com a pujança que o caracterizou em séculos posteriores. Porém, antes de narrar estes acontecimentos convém que nos detenhamos para discutir a origem do papado.
A origem do papado
O termo "papa", que atualmente é empregado no Ocidente exclusivamente para o bispo de Roma, nem sempre teve este sentido. A palavra em si significa simplesmente "papai", sendo, portanto, um termo de carinho e respeito. Na época antiga, ele era usado para qualquer bispo distinto, sem importar se ele era ou não o bispo de Roma. Assim, há, por exemplo, documentos antigos que se referem ao "papa Cipriano", de Cartago, ou ao "papa Atanásio", de Alexandria.
Além disto, enquanto no Ocidente o termo acabou ficando exclusivamente para o bispo de Roma, em várias partes da igreja oriental ele continuou sendo usado com mais liberalidade. Todavia, não se pode esquecer que o descaminho da igreja romana começa efetivamente aqui, uma vez que descumpre um mandamento do próprio Cristo > "E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus." (Mateus 23.9)
Em todo caso, a questão mais importante não é a origem do termo "papa", mas de que maneira o bispo de Roma chegou a gozar da autoridade que teve durante a Idade Média, e que ainda tem na igreja católica romana.
As origens do bispado romano se perderam na penumbra da história. A maior parte dos historiadores, tanto católicos como protestantes, concorda que Pedro esteve em Roma e que, provavelmente, morreu naquela cidade durante a perseguição de Nero. Porém NÃO existe nenhum documento antigo que diga que Pedro transferiu sua autoridade apostólica aos seus sucessores.
Além disso, as listas antigas que enumeram os primeiros bispos de Roma não coincidem. Enquanto algumas dizem que Clemente sucedeu diretamente a Pedro, outras dizem que ele foi o terceiro bispo depois da morte do apóstolo. Isso é tanto mais digno de nota por termos listas relativamente fidedignas de outras igrejas. Isso, por sua vez, levou alguns historiadores a conjeturar que talvez o bispado de Roma, em seu princípio, não tenha sido "monárquico" (isto é, com um só bispo), porém um bispado colegiado onde vários bispos, ou presbíteros, dirigiam a vida da igreja em conjunto.
Seja qual for o caso, o fato é que de todo o período que vai desde a perseguição de Nero, em 64, até a Primeira Epístola de Clemente, em 96, o que sabemos do bispado romano é pouco ou nada. Se o papado ti¬vesse sido tão importante desde as origens da igreja, como dizem alguns, teria deixado mais vestígios durante toda esta segunda metade do primeiro século.
Durante os primeiros séculos da história da igreja, o centro numérico do cristianismo esteve no Oriente, e por isso bispos de cidades como Antioquia e Alexandria tinham muito mais importância que o bispo de Roma. E também no Ocidente de fala latina, a direção teológica e espiritual não esteve em Roma, mas na África latina, que contribuiu com Tertuliano, Cipriano e Santo Agostinho.
Essa situação começou a mudar quando o Império aceitou a fé cristã. Como Roma era, pelo menos de nome, a capital do lmpério, a igreja e o bispo dessa cidade logo se viram ern posigão de deslaque. Em todo o Império, a igreja começou a se organizar de acordo com os padrões estabelecidos pelo estado, e as cidades que tinham jurisdição política sobre uma região logo tinham também jurisdição eclesiástica.
Depois de algum tempo a igreja estava dividida em cinco patriarcados, que tinham suas sedes em Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Roma. A própria existência do patriarcado de Constantinopla, uma cidade que nem sequer existia como tal em tempos apostólicos, mostra que esta estrutura correspondia mais a realidades políticas que a origens apostólicas. E o caráter quase somente simbólico do patriarcado de Jerusalém, que poderia reclamar para si ainda mais autoridade apostólica que a própria Roma, mostra a mesma coisa.
Quando os bárbaros invadiram o Império, a igreja do Ocidente começou a seguir um rumo bem diferente da do Oriente. No Oriente, o Império continuou existindo, e os patriarcas continuaram subordinados a ele. O caso de João Crisóstomo, que vimos anteriormente, se repetiu com frequência na igreja oriental. No Ocidente, entretanto, o Império desapareceu, e a igreja veio a ser a guardiã do que restava da velha civilização. Por isso, o patriarca de Roma, o papa, chegou a ter grande prestígio e autoridade.

Leão, o Grande
Podemos ver isso no caso de Leão I, "o Grande", de quem já se disse que foi o primeiro "papa", no sentido corrente do termo. Mais à fente, veremos sua intervenção nas controvérsias cristológicas que dividiram o Oriente durante seu tempo. Ao estudarmos estas controvérsias, e a participação de Leão, duas coisas ficam claras. A primeira é que sua autoridade não era aceita pelas partes em conflito, somente pelo fato de ele ser o bispo de Roma.
Enquanto os ventos políticos sopraram na direção contrária, Leão pouco pôde fazer para impor sua doutrina ao resto da igreja (particularmente no Oriente). E quando, por fim, sua doutrina foi aceita, isto não aconteceu porque ela provinha do papa, mas porque coincidiu com a do partido que no fim conseguiu sair vitorioso.
A segunda coisa que se nota é que, apesar de Leão não poder fazer valer sua autoridade de maneira automática, essa autoridade aumentou por ter sido usada em prol da ortodoxia e da moderação. Portanto, as controvérsias cristológicas, ao mesmo tempo que nos mostram que o papa não tinha jurísdição universal, nos mostram também como sua autoridade foi aumentando. Porém, enquanto que no Oriente duvidava-se de sua autoridade, em Roma e vizinhanças, esta autoridade se estendia até além dos assuntos tradicionalmente religiosos.
Em 452, os hunos, sob o comando da Átila, invadiram a Itália, tomaram e saquearam a cidade de Aquilea. Depois desta vitória, o caminho para Roma estava aberto, pois em toda a Itália não existia ne¬nhum exército capaz de barrar-lhes o caminho até a velha capital.
O imperador do Ocidente era um personagem débil e sem recursos, e o Oriente tinha dado a entender que não prestaria nenhum socorro. Nessas circunstâncias, Leão partiu de Roma e foi até o acampamento de Átila, para falar com o chefe bárbaro que todos temiam como "o chicote de Deus". Não sabemos o que Leão disse a Átila. Conta a lenda que, quando o papa se aproximou, junto dele apareceram São Pedro e São Paulo, ameaçando Átila com uma espada. Em todo caso, o fato é que Átila, depois desse encontro com Leão, abandonou sua intenção de atacar Roma e rumou com seus exércitos para o norte, onde morreu pouco depois.
Leão ainda ocupava o trono episcopal de Roma quando os vândalos tomaram a cidade, em 455. Naquela ocasião, o papa não conseguiu salvar a cidade das mãos dos seus inimigos. Porém, pelo menos, foi ele quem negociou com Genserico, o chefe vândalo, e conseguiu que ele proibisse incêndios e assassinatos. Ape¬sar da destruição causada pelos vândalos ter sido grande, ela poderia ter sido muito maior se Leão não tivesse intervindo.
Tudo isto nos mostra que em uma época em que a Itália e boa parte da Europa Ocidental estavam atoladas no caos, o papado preencheu o vazio, proporcionando certa estabilidade. Essa foi a principal razão por que os papas da Idade Média alcançaram um poder que os patriarcas de Constantinopla, Antioquia ou Alexandria nunca tiveram.
Leão, porém, não baseava sua autoridade somente em considerações políticas. Para ele a autoridade do bispo de Roma sobre todo o restante da igreja era parte do plano de Deus. Jesus Cristo tinha dado a São Pedro as chaves do Reino, e a Providência divina tinha levado o velho pescador à capital do Império. Pedro era a pedra sobre a qual Jesus Cristo tinha prometido edificar a sua igreja, e por isso quem quisesse construir sobre outro fundamento estaria edificando sobre a areia. Que grande mentira!
Foi a Pedro que o Senhor disse diversas vezes: "Apascenta as minhas ovelhas". E tudo isso que as Escrituras dizem sobre o líder dos apóstolos também vale para seus sucessores, os bispos de Roma.
Por isso a autoridade do papa não advém simplesmente do fato de Roma ser a antiga capital do Império, nem porque na época não havia em todo o Ocidente quem pudesse dirigir os destinos da sociedade, mas era parte do plano de Deus, e existiria para sempre, pois as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Mais e mais mentiras, pois uma exige sempre outra e mais outra.
Como vemos, em Leão encontramos os principais argumentos que através dos séculos seriam reunidos a favor da autoridade papal.

Os sucessores de Leão
Leão deve parte do seu prestígio à sua própria pessoa, e parte às circunstâncias do momento. Sem dúvida ele era um personagem excepcional, e diz-se com razão que em sua épo¬ca não existia quem pudesse se comparar a ele em firmeza de caráter, profundeza de percepção teológica e habilidade política. Porém tudo isto pôde se manifestar graças à situa¬ção política em que lhe coube viver. Com efeito, Leão foi papa durante um período de relativa anarquia na Itália, e boa parte da sua grandeza residiu em saber preencher o vazio criado por essa anarquia.
Quando Leão morreu, sucedeu-lhe Hilário que havia sido um dos seus principais colaboradores. Este fez tudo que pôde para continuar a política de Leão, se bem que com menor êxito. ----------
Durante o pontificado de Simplício, que sucedeu a Hilário, as condições políticas começaram a mudar. Em 476, Odoacro depôs o último imperador do Ocidente. Na teoria, isso queria dizer que agora todo o Império estava de novo reunido debaixo do imperador que residia em Constantinopla. Na verdade quem governava era Odoacro e os demais chefes bárbaros, como monarcas independentes, apesar de dizerem que governavam em nome do imperador. Portanto, sempre que estes monarcas eram fortes, faziam sombra ao papa, esforçando-se por manejá-lo de acordo com suas próprias intenções.
Em outras ocasiões, porém, não havia poder político algum capaz de se sobrepor ao caos, e então os papas se viam na obrigação de preencher este vazio.
Na época de Simplício e dos seus sucessores, Felix III, Gelásio e Anastácio l, as relações entre os papas e os impe¬radores de Constantinopla foram bastante tensas, pois os imperadores tratavam de conquistar a simpatia dos monofisistas (relativo à doutrina daqueles que admitiam em Jesus Cristo uma só natureza) da Síria e do Egito. Mas os papas e todo o Ocidente cristão se opunham a esta política.
Como veremos mais adiante, o monofisismo era uma das doutrinas resultantes das controvérsias cristológicas que abalaram o cristianismo de fala grega durante o século V. Se bem que esta doutrina tenha sido condenada oficialmente pelo concílio de Calcedônia em 451, ela ainda contava com numerosos adeptos no Egito e na Síria. Como estas províncias faziam parte das mais ricas regiões do Império, os governantes de Constantinopla fizeram tudo o que podiam para granjear para si a boa vontade dos monofisistas, o que, por sua vez, criou tensões entre os papas e os imperadores.
Por outro lado, na época de Félix, os godos invadiram a Itália, sob o comando de Teodorico. Em 493, Teodorico era dono de quase toda a península. Como os godos eram arianos, sempre temiam que seus súditos italianos conspirassem a favor de Constantinopla, e por isso Teodorico e seus sucessores vi¬ram com bons olhos as desavenças entre os papas e os imperadores e trataram de fomentá-las. Lembremo-nos também que foi Teodorico quem mandou prender e matar Boécio, suspeitando que seu ministro conspirava para trazer de volta o poder imperial.
Antes da vitória definitiva de Teodorico, o papa Félix III havia rompido relações com o patriarca de Constantinopla, Acácio. Isto é o que os historiadores ocidentais conhecem pelo “cisma de Acácio", enquanto os orientais culpam o papa pelo cisma. Agora, com os interesses de Teodorico e dos seus sucessores, o cisma se perpetuou.
Em 498, quando morreu o papa Atanásio II, a tensão entre godos e bizantinos resultou na existência de dois papas rivais. Enquanto os godos e boa parte da população romana apoiava Símaco, que os católicos até hoje consideram como
verdadeiro papa, o governo de Constantinopla sustentava Lourenço. Nas ruas de Roma houve conflitos armados em que morreram várias pessoas. Uma série de concílios se reuniu para resolver a questão, até que por fim Símaco saiu vencedor.
Sob o sucessor de Símaco, Hormisdas, a situação começou a mudar. O novo imperador, Justino, começou a se interessar cada vez mais pelo Mediterrâneo ocidental, e nesse intento, se aproximou do papa.
O sucessor de Justino, seu sobrinho Justiniano, seguiu essa política muito mais ativamente e sob seu governo o antigo Império Romano gozou de uma breve reascensão. Depois de uma série de negociações, e ainda enquan¬to Hormisdas era papa, o cisma entre Roma e Constantinopla foi eliminado.
No começo, o rei godo Teodorico se opôs a esta aproximação entre seus súditos e as autoridades imperiais. Porém mais perto do fim de seus dias, ele começou a suspeitar que os católicos conspiravam para derrubar o governo dos godos e devolver a Itália ao Império. Foi então que ele mandou prender e matar a Boécio.
Pouco depois Teodorico enviou o papa João l como embaixador para Constantinopla e, quando este voltou sem conseguir tudo o que o rei queria, o rei o conde¬nou à prisão, onde morreu. Conta-se que Teodorico estava empenhado a entregar todas as igrejas de Ravena aos arianos quando a morte o surpreendeu.
A morte de Teodorico iniciou o ocaso do reino godo na Itália. Teodorico morreu em 526, e em 535, o general constantinopolitano Belisário já tinha conquistado a maior parte da península.
A despeito de se esperar que a nova situação política resultaria proveitosa para o papado, isso não ocorreu. Somente em seus últimos anos de vida, o ariano Teodorico permitiu aos seus súditos ortodoxos que seguissem a sua própria consciência em questões de fé. Agora o imperador ortodoxo Justiniano, supostamente aliado do papa, impôs ao Ocidente o costume oriental de colocar os rendimentos da igreja nas mãos do estado.
O resultado foi toda uma sequência de papas que não passaram de títeres do imperador e da sua esposa Teodora. Os poucos que ousaram tentar interromper essa sequência sofreram todo o peso do desagrado imperial. Em meio às controvérsias teológicas da época, alguns destes papas escreveram páginas tristes da história do papado, como veremos mais à frente.
O domínio bizantino sobre a Itália, entretanto, não durou muito. Como já dissemos antes, o último baluarte godo foi conquistado pelas tropas imperiais em 562, e já seis anos depois, os lombardos invadiram o país. Seu poderio era tal que, se tivessem continuado unidos, não teriam demorado em conquistar toda a península. Eles, porém, se dividiram depois das suas primeiras vitórias, e a partir de então, as suas conquistas foram esporádicas.
Em todo caso a presença dos lombardos e as guerras constantes que essa presença acarretou obrigaram os papas a se ocuparem não só das questões religiosas, mas também da defesa de Roma e circunvizinhanças. Quando Justiniano morreu, o Império Oriental começou de novo a decair, e em pouco tempo a sua autoridade na Itália era quase nula. O exarcado (relativo aos delegado dos imperadores de Bizâncio na Itália ou na África) de Ravena, que teoricamente pertencia ao Império, se viu obrigado a se defender contra os lombardos por conta própria.
O mesmo podemos dizer de Roma, sob a direção do papa. Quando Benedito l faleceu em 579, as tropas lombardas assediaram a cidade. Seu sucessor Pelágio II salvou-a, oferecendo aos lombardos altas somas em dinheiro. Além disto, já que Constantinopla não lhe enviava ajuda, Pelágio iniciou negociações com os francos, para que estes atacassem os lombardos pelo norte. Estes contatos iniciais ainda não levaram a ações militares, mas serviram de sinal para o que sucederia várias gerações mais tarde, quando os francos se transformaram nos principais aliados do papado.

Gregório, o Grande
As coisas estavam assim quando uma terrível epidemia irrompeu na Itália. Pelágio fez tudo o que podia para enfrentar este novo desafio, mas acabou ele mesmo sucumbindo à peste. Era o ano de 590, e o eleito para sucedê-lo seria um dos maiores papas de todos os tempos.
Gregório nasceu por volta do ano 540 em Roma, em uma família que, ao que parece, pertencia à velha aristocracia do lugar. Era a época em que Justiniano reinava em Constantinopla, e seus generais estavam empenhados em derrotar os godos na Itália. Depois das primeiras vitórias, Justiniano tirara seu general Belisário do campo de batalha, quando Totila conseguiu reorganizar as tropas godas, e deter por algum tempo o avanço dos exércitos imperiais.
Em 545, Totila sitiou Roma, que se rendeu a ele em dezembro de 546. Quando os godos entraram na cidade, o arcediago (O primeiro entre os diáconos) Pelágio (o mesmo que depois seria papa) saiu ao encontro do rei vencedor e lhe suplicou que respeitasse a vida e a honra dos vencidos. Totila concordou, e por isso a queda de Roma não foi a catástrofe que poderia ter sido.
É muito provável que Gregório tenha estado em Roma durante estes acontecimentos. Em todo caso não há dúvida de que a atuação de Pelágio foi um dos modelos que Gregório seguiu quando coube a ele ser papa. ,
Tudo isto nos mostra que a Roma em que Gregório cresceu estava muito longe daquela cidade nobre dos tempos de César Augusto. Pouco depois da vitória de Totila, Belisário e as tropas imperiais tomaram novamente a cidade, somente para perdê-la de novo. Com tantos sítios seguidos a população da antiga capital reduziu-se enormemente. Muitos dos velhos monumentos e edifícios foram destruídos, ou durante os comba¬tes, ou para utilizar suas pedras para reforçar as defesas da cidade. Os aquedutos foram interrompidos seguidamente pelos diferentes atacantes, e por fim ficaram abandonados. Descuidou-se dos sistemas de drenagem dos antigos pântanos, e as inundações frequentes traziam consigo epidemias não menos frequentes.
Sabemos pouco da juventude de Gregório na cidade. Parece que ele foi prefeito, antes de decidir ser monge. Algum tempo depois, o papa Benedito o fez diácono, isto é, mem-bro do conselho consultivo e administrativo do papa. Quan¬do Benedito morreu, Pelágio II lhe sucedeu, e este nomeou o monge Gregório seu embaixador na corte de Constantinopla.
Na cidade do Bósforo, Gregório passou seis anos representando os interesses do papa e dos romanos diante do imperador. Durante este tempo esteve repetidamente envolvido nas controvérsias teológicas que sempre ferviam na corte bizantina, porém apesar disso nunca aprendeu grego. Ali também ele fez amizade com Leandro de Sevilha, a quem já nos referimos como principal instrumento da conversão do reino visigodo da Espanha à fé católica.
Por fim, em 586, o papa Pelágio enviou outro embaixador, e Gregório pôde regressar à tranquilidade do seu mosteiro em Roma. No mosteiro de Santo André, Gregório logo foi feito abade, ao mesmo tempo que servia ao papa Pelágio como ajudante e secretário.
Nestes tempos a situação em Roma era difícil, pois dois anos antes do regresso de Gregório, os lombardos tinham acabado por se unir debaixo de um rei, com o propó¬sito de completar a conquista da Itália. Apesar do imperador enviar alguns recursos esporádicos para a defesa de Roma e de outras cidades ainda não conquistadas, e apesar dos francos invadirem frequentemente os territórios lombardos, vindos do outro lado dos Alpes, a situação militar era precária.
Para complicar as coisas, irrompeu uma grande epidemia na cidade, dizimando a população. Pouco antes houvera uma inundação que destruíra os principais armazéns da igreja, onde era guardado o trigo de que dependia boa parte dos habitantes.
Como a peste produzia alucinações, começaram a circular rumores de todo tipo de coisa estranhas. Um grande dragão apareceu no rio Tibre. Do céu choviam flechas de fogo. A morte aparecia aos que iam morrer. O pânico se somou à fome e à peste. Para cúmulo dos males, o papa Pelágio, que tinha se esforçado para manter a cidade relativamente limpa, com a ajuda de Gregório e de outros, para enterrar os mortos e alimentar os famintos, adoeceu da praga e morreu.
Em tais circunstâncias, não eram muitos os que ambicio¬navam o posto vago. O próprio Gregório não tinha outro desejo senão regressar à tranquilidade do seu mosteiro. Porém o clero e o povo o elegeram com entusiasmo e, ao menos no momento, Gregório não podia fazer outra coisa senão continuar a obra interrompida de Pelágio.
Uma das suas primeiras medidas, entretanto, foi escrever ao imperador pedindo que confir¬masse sua nomeação, pois naquela época havia o costume dos imperadores de Constantinopla darem sua aprovação ao papa eleito, antes que ele pudesse ser consagrado. Porém, o prefeito da cidade, que sabia que não poderia cumprir com suas obrigações sem o auxílio de um papa como Gregório, intercep¬tou a carta.
Outra das medidas de Gregório foi convocar todo o povo para uma grande procissão de penitência, pedindo a Deus que perdoasse seus pecados e que fizesse cessar a praga. Depois de ouvir um sermão do novo papa, que ainda existe, todo o povo saiu em procissão angustiada, e conta-se que a praga cessou.
Mesmo não desejando ser papa, assim que Gregório se viu instituído no cargo começou a cumprir com suas obriga¬ções cabalmente. Na cidade de Roma, organizou a distribuição de alimentos aos necessitados, de modo que havia quem levasse comida até os cantos mais afastados da cidade. Ao mesmo tem¬po o papa supervisionava as remessas de trigo que vinham da Sicília, para ter certeza de que não faltariam provisões. Por outro lado era necessário garantir que a cidade fosse ha¬bitável e defensável, e Gregório se dedicou com afinco a essas tarefas, que normalmente cabiam às autoridades civis. Na medida do possível, os aquedutos foram reconstruídos, bem como as fortificações, e a moral da guarnição foi renovada, pois ela quase a tinha perdido por falta de pagamento.
Para defender a cidade contra os lombardos, Gregório solicitou ajuda de Constantinopla. Porém como esta ajuda não chegava, em duas ocasiões ele se viu obrigado a negociar diretamente com o inimigo, como se ele fosse o representante do poder civil. Por fim conseguiu com a rainha Teodolinda que ela deixasse educar seu filho na fé católica, e não na ariana dos lombardos.
Em tudo isto, por causa da inexistência de uma política por parte do Império, Gregório viu-se obrigado a atuar por conta própria, e por isso ele é considerado o fundador do poder temporal do papado.
Este poder se estendia diretamente a uma série de territórios que de um ou outro modo tinham se tornado propriedade do papado, e que recebiam o nome comum de "património de São Pedro". Além das igrejas e de vários palácios em Roma, ao redor da velha capital havia terras que faziam parte deste património, bem como em outras partes da Itália, na Sicília, Córsega, Sardenha, Gália, e até na África.
Como proprietário de todas estas terras, o papado gozava de enormes riquezas. E Gregório pôs esse recurso a serviço da grande tarefa de alimentar o povo romano. Apesar de não lhe pertencer o governo da cidade de Roma, Gregório viu-se obrigado a exercê-lo. Esse precedente, junto com a decadência do poder imperial na Itália, fez com que, com o passar do tempo, os sucessores de Gregório ficassem sendo donos e governantes da cidade de Roma e arredores.
Algum tempo depois, perto do fim do século VIII, alguém falsificou um documento, a chamada Doação de Constantino, que pretendia que o grande imperador tivesse doado aqueles territórios aos sucessores de Pedro.
Em Roma, além de se ocupar com as necessidades físicas do povo, Gregório dedicou também seu tempo à vida da igreja. Ele dava muita importância à pregação, razão pela qual dedicou boa parte dos seus esforços pregando nas diversas igrejas da cidade e assegurando-se que todo o clero desse atenção especial à pregação.
Os luxos a que alguns tinham se acostumado foram proibidos, assim como pagamentos excessivos que alguns clérigos recebiam por seus serviços. Além disso, Gregório adotou medidas em favor do celibato eclesiástico, que paulatinamente tinha se generalizado na Itália, mas que muitos não cum¬priam.
Como bispo de Roma, Gregório se considerava também patriarca do Ocidente. Sem reclamar para o papado a autoridade universal que Leão tinha definido antes, Gregório fez muitos mais que seu antecessor para aplicar esta autoridade em diversas regiões. Na Espanha ele deu apoio às medidas que seu amigo Leandro de Sevilha e o rei Recaredo tomavam em favor da conversão do país do arianismo para o catolicismo.
Na verdade, foi ele quem interpretou assim a rebelião de Hermenegildo, a quem nos referimos antes, que logo foi considerado mártir da fé ortodoxa, sendo que mais tarde apareceu o culto a "São Hermenegildo".
Na África, o principal problema não eram os arianos, mas os donatistas, cujo cisma ainda perdurava. Na época de Gregório, e graças às conquistas de Justiniano e de seu general Belisário, todo o norte da África fazia parte do Império Romano. O Egito estava sob a jurisdição do patriarca de Alexandria. Gregório, entretanto, como patriarca do Ocidente, achava que tinha certa jurisdição sobre o antigo reino dos vândalos, que sempre fizera parte do Império do Ocidente. Por isso tratou de intervir nessa região para destruir o donatismo que ainda existia.
Os bispos africanos, todavia, não tinham interesse em levar avante a política intransigente que Gregório queria lhes impor, e se contentaram em conviver com os donatistas, como tinham aprendido a fazê-lo durante os dias difíceis do regime vândalo.
Gregório, por seu lado, fez pressão para que as autoridades imperiais aplicassem as leis de Constantino e dos seus sucessores imediatos contra os donatistas, que supostamente ainda estavam em vigor, mas que ninguém aplicava.
Os representantes de Constantinopla, entretanto, também se mostraram mais tolerantes que o papa, de modo que a política deste, no norte da África, foi, em termos gerais, um fracasso. À Inglaterra, Gregório enviou Agostinho e seus companheiros de missão, e depois outros contingentes que continuassem e ampliassem a obra. Nos territórios francos Gregório aumentou o prestígio da sede romana através de uma série de manobras hábeis. Os diversos reis francos estavam em constantes lutas entre si, cada um tentando aumentar seus domínios às expensas dos seus vizinhos, e obter a hegemonia da região. Em tais circunstâncias as boas relações com o prestigioso bispo de Roma poderiam contribuir para o triunfo de um ou outro reino.
Gregório aproveitou, então, os desejos de vários destes governantes para estabelecer relações com eles, sobretudo ao outorgar honras especiais a este ou aquele bispo deste ou daquele reino. Ao mesmo tempo, começou a usar esses contatos para pedir aos governantes que reformassem os costumes eclesiásticos em seus domínios, onde era hábito comprar e vender cargos na igreja, e onde era frequente o caso de algum leigo ambicioso ser nomeado bispo de um dia para outro.
Em outras tentativas de reforma, Gregório fracassou redondamente, pois os chefes francos queriam reter seu poder sobre a igreja. E o que o papa pedia acabaria com esse poder. Porém, ao mesmo tempo que não conseguiu as reformas desejadas, Gregório conseguiu aumentar o prestígio e a autoridade do papado nos territórios francos, pois a partir de então ficaram numerosos precedentes que pareciam indicar que o papa tinha jurisdição sobre os assuntos eclesiásticos na França.
Em resumo, mediante a simples política de intervir em diversas situações, quase sempre com tato e habilidade diplomática, Gregório estendeu a esfera de influência do papado.
Para esta tarefa ele contou com a ajuda do monasticismo beneditino, que começava a se disseminar pela Europa ocidental.
Já que o monasticismo e o papado foram as duas características principais do cristianismo medieval, podemos dizer que no tempo de Gregório foram colocadas as bases que, a longo prazo, permitiram à igreja ocidental sair da "era das trevas". Porém, como veremos adiante, a obra de Gregório levou séculos até chegar à sua expansão máxima, e os períodos de corrupção e obscurantismo foram mais frequentes que os momentos breves de luz e reforma.
Não faríamos justiça a todas as razões por que Gregório recebeu o título de "o Grande", se nos esquecêssemos de sua obra literária e teológica. Desde antes de ser papa, ele tinha se dedicado ao estudo das Escrituras e dos antigos autores cristãos. Sendo papa, mesmo dedicando menos tempo a este estudo, produziu numerosos sermões e cartas, muitos dos quais ainda existem. Através destes escritos, ele fez sentir seu impacto sobre todo o pensamento medieval.
Gregório não era um pensador de altas esferas, nem um comentarista original das Escrituras. Pelo contrário, ele achava que dever-se-ia evitar por todos os meios possíveis o que parecia ser "original" ou "novo", pois não é tarefa do mestre cristão dizer algo novo, mas repetir o que a igreja tem ensinado desde seu nascimento, e por isso somente os hereges são autores ou pensadores originais.
Quanto a si, Gregório se conformava em ser o porta-voz da antiguidade cristã, seu intérprete para tempos presentes. Bastava-lhe ser discípulo de Agostinho, e mestre dos ensinos deste.
Porém os séculos não passam em vão. Um abismo enorme se abria entre o bispo de Hipona e seu intérprete de fins do sexto século. Apesar de toda sua sabedoria, Gregório viveu em uma época de ignorância, e em certa medida tinha de participar dessa ignorância. Além disso, somente por considerar Agostinho seu mestre infalível Gregório já está torcendo o espírito do seu venerado mestre( cujo gênio residia, pelo menos em parte, em sua mente inquieta e suas conjecturas arriscadas. O que para Agostinho não passava de suposição, para Gregório passa a ser certeza. Assim, por exemplo, Agostinho se aventurara a dizer que talvez haja um lugar onde os que morrem em pecado tenham de passar por um processo de purificação, antes de entrar na glória.
Baseando-se nessa conjectura de seu mestre, Gregório declara que indubitavelmente existe este lugar, e começa a desenvolver a doutrina do purgatório.
Principalmente no que se refere à doutrina da salvação, foi que Gregório deformou e até transformou os ensinos de Agostinho. As doutrinas agostinianas da graça irresistível e da predestinação passaram despercebidas nas obras de Gregório, que dedicou sua atenção à questão de como podemos oferecer a Deus uma satisfação pelos pecados que cometemos. Esa satisfação oferecemos através da penitência, que consiste em arrependimento, confissão e pena ou castigo. A estas três fases se junta a absolvição sacerdotal, que confirma o perdão que Deus já conferiu ao penitente. Os que morrem na fé e em comunhão com a igreja, mas não fizeram suficiente penitência por seus pecados, vão para o purgatório, onde passam algum tempo antes de ir para o céu.
Uma das maneiras de os vivos ajudarem os mortos a saí¬rem do purgatório é oferecer missas em seu nome. Para Gregório, a missa é um sacrifício em que Cristo é imolado de novo. E diz a lenda que, em certa ocasião em que esse papa celebrava a missa, o Crucificado lhe apareceu. Esta idéia da missa como sacrifício, que talvez poderia ser deduzida de alguns textos de Agostinho, mesmo que forçando-os, é parte fundamental da devoção e da teologia de Gregório.
Conta-se que quando Gregório ainda era abade de Santo André ficou sabendo que um dos seus monges, que estava à beira da morte, tinha escondido algumas moedas de ouro. A sentença do abade foi dura: o monge pecador morreria sem escutar uma palavra de perdão ou consolo, e seria enterrado em um monte de esterco, junto com seu ouro. Depois de cumprida esta sentença, e para salvação da alma de Justo (este era o nome do monge), Gregório ordenou que durante os próximos trinta dias a missa do mosteiro fosse lida em memória a ele. Findado este período, o abade declarou que, de acordo com uma visão que o monge Copioso, irmão carnal do falecido, tivera, a alma de Justo tinha saído do purgatório e estava agora na glória.
Tudo isto não foi invenção de Gregório. Era mais parte do ambiente e das crenças da época. Porém, enquanto os antigos mestres da igreja haviam se esforçado para evitar que a doutrina cristã fosse contaminada com superstições populares, Gregório simplesmente aceitou todas as crenças, superstições e lendas da sua época como se fossem verdade evangélica.
Suas obras estão cheias de narrações de milagres, aparições de defuntos, anjos e demónios, e outras coisas anti-bíblicas. Quando, com o correr do tempo, a produção literária de Gregório passou a ter a mesma autoridade infalível que tinha tido a de Santo Agostinho, boa parte das crenças populares do século sexto foi realmente incorporada à doutrina cristã.
Os sucessores de Gregório
Os papas que seguiram a Gregório mostraram-se incapazes de continuar a sua obra. Seu sucessor imediato, Sabiniano, achou ser prudente vender a bom preço o trigo que Gregório tinha distribuído gratuitamente. Quando os pobres se queixaram, dizendo que somente os ricos podiam comer, enquanto eles morriam de fome, Sabiniano começou uma companha de difamação contra Gregório, dizendo que ele tinha utilizado o património da igreja para se fazer popular.
A reação foi que começou uma campanha pública contra o papa reinante. Pedro, o Diácono, admirador fiel de Gregório, declarou que, ainda em vida deste, tinha visto o Espírito Santo, em forma de pomba, sussurrando-lhe ao ouvido. A partir de então, boa parte da iconografia cristã tem apresentado Gregório com uma pomba sobre seu ombro. Quando Sabiniano morreu, antes de completar dois anos de pontificado, dizia-se que Gregório lhe tinha aparecido três vezes, sem que o papa lhe desse atenção, e que na quarta aparição, o espírito de Gre¬gório se enfureceu tanto que matou Sabiniano com um golpe na cabeça.
O próximo papa, Bonifácio III, conseguiu que o imperador Focas lhe concedesse o título de "bispo universal", que Gregório tinha recusado. Mais tarde, outros papas citaram esse precedente para dizer que a igreja bizantina também chegou a reconhecer a supremacia de Roma. Porém o fato é que o imperador Focas, que deu este título a Bonifácio, era um usurpador, e que a única razão de ele honrar assim o papa era que ele estava aborrecido com o patriarca de Constantinopla, que por algum tempo havia se chamado de "bispo universal". Em todo caso, o papado de Bonifácio III não durou um ano, e quando o imperador Focas morreu, o patriarca de Constantinopla voltou a usar o cobiçado título.
De 607 a 625, houve uma sucessão de três papas que conseguiram restaurar parte da glória que o papado tinha perdido: Bonifácio IV, Deodato e Bonifácio V. Estes pontífices voltaram â vida austera que Gregório tinha levado, e em meio às vicissitudes da época puderam fazer algumas reformas na disciplina eclesiástica e organizar a igreja inglesa de acordo com os padrões romanos.
Durante o próximo papado, entretanto, começaram a aparecer as consequências funestas da relação estreita que existia entre Roma e Constantinopla. Como vimos, desde o tempo de João Crisóstomo os imperadores de Constantinopla tinham se acostumado a ter a última palavra em questões eclesiásticas.
No Ocidente a situação era bem diferente, pois frequentemente não houvia um poder civil efetivo. No século VII, já que não havia imperador no Ocidente, e a Itália estava na esfera de influência de Constantinopla, os imperadores orientais quiseram impor sua vontade sobre os papas, assim como o tinham feito com os patriarcas de Constantinopla. O papa Honório, sucessor de Bonifácio V, teve de enfrentar a questão do monotelismo, doutrina que discutiremos depois, e que o imperador Heráclio apoiava. Pressionado pelo imperador, o papa se declarou monotelista. Quando depois de muitas controvérsias a questão foi resolvida no concílio de Constantinopla, em 680, o papa Honório, que tinha morrido quarenta anos antes, foi declarado herege.
Enquanto isso, os sucessores de Honório tinham se mostrado mais firmes diante da doutrina monotelista e das pretensões imperiais. Só que tiveram de pagar um preço alto por essa firmeza. Durante o papado de Severino, em 640, o exarca de Ravena, que era o principal representante imperial na Itália, tomou Roma e se apossou dos tesouros da igreja. Uma parte da presa foi enviada para Constantinopla, e os clérigos que protestaram foram exilados.
Pouco depois, o papa Martim sofreu consequências semelhantes. Na época, em Constantinopla reinava Constante II, que quis encerrar o assunto e simplesmente proibiu qualquer debate sobre ele. Ao papa isso pareceu uma usurpação de poder por parte do imperador, e ele convocou um concílio que se reuniu em Latrão e condenou o monotelismo, em franca desobediência ao mandato imperial. O resultado foi que as tropas do exarcado de Ravena sequestraram o papa, que foi levado para Constantinopla, e dali para o exílio, onde morreu.
O monge Máximo, que tinha apoiado o papa decididamente, foi enviado ao exílio, depois de serem cortadas a língua e a mão direita dele, para que não pudesse difundir as suas supostas heresias. Depois desta mostra do poder imperial, os sucessores de Martim obedeceram às ordens de Constante, e guardaram silêncio em relação ao monotelismo. Quando afinal o concílio de Constantinopla se reuniu em 680, isto foi possível porque as circunstâncias políticas tinham mudado, e o novo imperador queria chegar a um acordo mais aceitável para a igreja ocidental. A isso seguiu-se um período de paz entre Roma e Constantinopla, durante o qual a primeira se submeteu à segunda, ao que parece sem nenhum protesto.
O conflito entre o Império oriental e a igreja do Ocidente surgiu de novo quando do concílio que o imperador Justiniano II convocou em fins do século VII, que é conhecido como concílio "em Trulho", por ter se reunido num dos salões do palácio imperial que recebia este nome. Entre outras coisas, tratou-se ali do casamento dos clérigos. Na época tinha se estabelecido o costume, tanto no Oriente como no Ocidente, de os clérigos serem proibidos de casar depois de sua ordenação. Porém enquanto no Oriente os homens casados tinham permissão de continuar a vida matrimonial depois da ordenação, no Ocidente, em tais casos eles eram proibidos de qualquer ato sexual.
O concílio em Trulho rejeitou o costume ocidental, declarando que não há base na Escritura para proibir aos clérigos casados que continuem tendo relações sexuais com suas esposas. O papa Sérgio se negou a aceitar as decisões do concílio, e insistiu em que todos os clérigos deveriam ser celibatários. Justiniano tentou tratá-lo, assim como seu antecessor tinha tratado Martim; porém o povo romano se rebelou, e os oficiais imperiais teriam ficado em maus lençóis se o papa não tivesse intervindo junto ao povo, pedindo-lhe moderação.
Justiniano se preparava para se vingar desse insulto quando foi deposto. Quando afinal conseguiu voltar ao trono, ele começou uma vingança sistemática contra todos que se tinham oposto a ele no período anterior. Como o papa Sérgio tinha morrido, e o imperador não podia se vingar dele, insistiu em que o novo papa, Constantino, aceitasse os decretos do concílio em Trulho.
Com este propósito em mente, ele chamou o papa a Constantinopla. Dando provas de uma coragem fora do comum, Constantino aceitou o convite do imperador. Não sabemos no que consistiram as conversações entre o imperador e o papa. O fato é que este último, apesar de ter de se humilhar diante do primeiro, voltou a Roma com o favor imperial, e não se viu obrigado a aceitar os decretos do discutido concílio. Pouco depois o imperador foi deposto e decapitado. Quando sua cabeça foi enviada a Roma, o povo a arrastou pelas ruas.
O sucessor do papa Constantino, Gregório II, também entrou em choque com a corte de Constantinopla. A causa das novas desavenças foi a questão das imagens, de que trataremos depois, que foi principalmente uma contro¬vérsia dentro da igreja oriental. Uma vez mais o papa recebia ordens do imperador, que lhe ditava o curso que deveria seguir em assuntos ao que parece puramente religiosos.
Nesse caso, o imperador ordenou que nas igrejas as imagens dos santos não fossem mais veneradas. Em todo caso o que importa aqui é que houve de novo uma ruptura entre Roma e Constantinopla, pois o papa e seus seguidores se negaram a obedecer ao mandato imperial. Tanto Gregório II quanto seu sucessor, Gregório III, convocaram concílios que se reuniram em Roma e que condenaram os "iconoclastas" (como eram chamados os que se opunham às imagens).
O imperador, enfurecido, enviou uma grande esquadra contra Roma. Porém esta foi envolvida por uma grande tempestade, e boa parte da frota imperial naufragou. Pouco antes, os muçulmanos tinham tomado várias das províncias mais ricas do Império, e se apossado também de toda a costa sul do Mediterrâneo. Todos estes desastres marcaram o fim da influência de Cons¬tantinopla sobre o Mediterrâneo ocidental.
Quanto ao que se refere ao papado, esta mudança de circunstâncias podemos ver no fato de que, até Gregório III, a eleição de um novo papa não era considerada válida enquanto não ratificada pelo impe¬rador, ou por seu representante em Ravena. Depois de Gregó¬rio ninguém mais buscou esta ratificação.
Essa nova situação fez necessária uma mudança radical na política internacional dos papas. Depois da destruição da frota bizantina, ao mesmo tempo que o papa se sentiu alivia¬do, pois a ameaça desaparecera, viu-se também assediado pelo crescente poder dos lombardos, que durante várias gerações vinham tentando transformar-se em donos absolutos da Itália.
As tropas imperiais tinham sido o principal obstáculo às ambições dos lombardos. Agora que estas tropas tinham ido embora, o que o papa podia fazer para impedir que seus antigos inimigos se apossassem de Roma? A resposta era clara. Além dos Alpes os francos tinham se transformado em uma grande potência. Pouco antes, seu chefe, Carlos Martel, tinha detido o avanço dos muçulmanos ao derrotá-los na batalha de Tours ou Poitiers. Então, por que não pedir a quem tinha salvo a Europa do islã que salvasse agora Roma dos lombardos? Este foi o pedido que Carlos Martel recebeu do papa, junto com a promessa de ser nomeado "cônsul dos romanos".
Mesmo sendo impossível saber se Gregório se apercebeu da magnitude do passo que estava dando, o fato é que naquela carta do papa ao mordomo do palácio dos francos vários precedentes estavam sendo criados. O papa estava se dirigindo a Carlos Martel e lhe oferecendo honras que tradicionalmente só o imperador, ou o senado romano, podiam outorgar, e o fazia sem consultar Constantinopla.
Gregório estava agindo mais como estadista autônomo do que como súdito do Império ou como líder espiritual. Por outro lado, com estas gestões entre Gregório e Carlos Martel estavam sendo dados os primeiros passos para o surgimento de uma Europa Ocidental unida (pelo menos em teoria) sob um papa e um imperador.
Nisso estavam as coisas quando morreram Gregório e Carlos Martel. Luitprando, o rei dos lombardos, tinha desistido de atacar os territórios romanos, talvez porque sabia das negociações empreendidas com os francos e não queria provocar a inimizade de vizinhos tão poderosos. Porém, quando Carlos Martel morreu, seu poder foi dividido entre seus dois filhos, e Luitprando começou novamente a avançar contra Roma e Ravena.
O novo papa, Zacarias, não tinha outro recurso que o prestígio do seu cargo. Assim como Leão se pôs diante do avanço de Átila, Zacarias dispôs-se a enfrentar Luitprando face a face. A entrevista teve lugar na igreja de São Valentim, em Terni, e Luitprando devolveu ao papa todos os territórios recentemente conquistados, além de várias cidades que os lombardos já dominavam havia três décadas.
Zacarias regressou a Roma em meio às aclamações do povo, que fez uma procissão de ação de graças até a basílica de São Pedro. Quando Luitprando atacou Ravena, Zacarias foi novamente falar com ele, e outra vez conseguiu uma paz vantajosa.
Depois da morte de Luitprando, entretanto, seus sucessores estavam menos dispostos a se dobrarem diante da autoridade, ou das súplicas do papa, e foi então que Zacarias concordou com a deposição do rei franco Childerico III, "o estúpido", e com a coroação de Pepino, o filho de Carlos Martel. Deste modo continuava a política estabelecida por Gregório III, de se aliar com os francos diante da ameaça dos lombardos.
Zacarias morreu no mesmo ano da coroação de Pepino (752), porém seu sucessor, Estêvão II, logo teve oportunidade para cobrar a dívida de gratidão que o novo rei franco tinha contraído com Roma. Ameaçado pelos lombardos, Estêvão viajou até a França, onde ungiu de novo o rei e seus filhos, ao mesmo tempo que lhes suplicou ajuda contra os lombar¬dos.
Duas vezes Pepino invadiu a Itália para defender o papa, e na segunda vez lhe doou não só Roma e arredores, mas também Ravena e outras cidades que os lombardos tinham conquistado, e que tradicionalmente tinham sido governadas por Constantinopla.
Apesar dos protestos do imperador, o papa e o rei dos francos não lhe deram ouvidos. O império Bizantino já não era uma potência digna de ser levada em conta no Mediterrâneo ocidental. E o papa agora era soberano temporal de boa parte da Itália. Isso era possível, pelo menos na teoria, porque o imperador que reinava em Constantinopla se tinha declarado contrário às imagens, e por isso não era necessário obedecer-lhe.
Quando Estêvão morreu, seu irmão, Paulo, foi seu sucessor, e ocupou a sede pontifícia por dez anos, sempre sob a proteção de Pepino. Porém quando este papa morreu, um duque, vizinho poderoso, se apoderou à força da cidade e nomeou seu irmão Constantino papa.
Este é um dos primeiros exem¬plos de uma situação que se repetirá através de toda a Idade Média. Já que agora o papado era uma possessão territorial, e além disto gozava de grande prestígio e autoridade em outras regiões da Europa, muitos o cobiçavam não por razões religiosas, mas puramente políticas.
Como não havia um sistema de eleição rigorosamente estabelecido, não faltaram nobres das proximidades, ou famílias poderosas de Roma mesmo, que se apossaram do papado e o utilizaram para seus próprios fins.
Neste caso, todavia, Constantino não pôde manter-se no poder, pois alguns romanos apelaram aos lombardos, que intervieram com as armas, depuseram o usurpador, e procederam a uma nova eleição. O papa eleito foi Estêvão III, que empreendeu uma vingança terrível contra os que tinham apoiado a usurpação, vazando-lhes os olhos, mutilando-os e encarcerando-os.
Pouco depois morreu Pepino, o rei dos francos, e seus filhos Carlos (Carlos Magno) e Carlomão lhe sucederam, divi¬dindo o reino. Quando Carlomão morreu em 771, Carlos Magno se apossou dos territórios do seu irmão, deserdando a seus sobrinhos. Isso não era totalmente irregular, pois entre os francos a coroa não era estritamente hereditária, mas eletiva. Apesar do costume de herdar os territórios ter surgido através das gerações, quando da morte de Carlomão, os nobres do seu reino deveriam pelo menos ter a chance de eleger seu sucessor ou sucessores. Carlos Magno fez isto, sabendo que os nobres do reino do seu falecido irmão preferiam a ele por rei, aos fracos e inexperientes filhos de Carlomão.
Estes se refugiaram na corte de Desidério, rei dos lombardos, que se fez defensor de sua causa. O resultado de tudo isso foi uma aliança ainda mais estreita entre o papa, na época Adriano, e Carlos Magno.
Desidério decidiu aproveitar uma oportunidade em que Carlos Magno estava envolvido em outras guerras fronteiriças para atacar alguns dos estados pontifícios. Porém Carlos Magno atravessou inesperadamente os Alpes e infligiu tantas derrotas aos lombardos que a força destes ficou seriamente abalada.
Em um ato solene Carlos Magno confirmou a doação de territórios que seu pai Pepino tinha feito ao papa. Isto ocorreu no ano 774. A partir de então, Carlos Magno visitou por diversas vezes a cidade papal.
Uma destas visitas teve lugar em fins de 800. O sucessor de Adriano, Leão III, tinha sido atacado fisicamente por uma das famílias poderosas de Roma, que desejava o papado para um dos seus membros. Leão atravessou os Alpes e pediu socorro a Carlos Magno, que voltou novamente a Roma, escutou os argumentos de ambas as partes, e se decidiu a favor do papa. No dia de Natal, Leão presidiu o culto solene, estando presentes Carlos Magno, toda sua corte e seus principais oficiais, bem como uma enorme multidão do povo romano. No fim do culto, o papa tomou uma coroa, andou até. onde estava o rei, coroou-o, e proclamou: "Deus dê vida e vitória ao grande e pacífico imperador!"
Ao ouvir estas palavras todos os presentes irromperam em vivas e aclamações, enquanto o papa ungia o novo imperador.
Era um ato sem precedentes. Até poucas gerações antes, a eleição de cada novo papa não era válida enquanto não fosse confirmada pelo imperador de Constantinopla. Agora um papa se atrevia a coroar um rei com o título de imperador. E o fazia sem consulta prévia ao Império Oriental.
É impossível saber com certeza quais eram os propósitos específicos de Leão ao outorgar a Carlos Magno a dignidade imperial. Uma coisa, porém, estava clara. Desde o tempo de Rômulo Augústulo não houvera imperador no Ocidente. Em teoria, o imperador de Constantinopla o era de todo o Império Romano. Porém, na verdade, o governo imperial fora efetivo no Ocidente somente em algumas regiões da África e da Itália. E também nestas, sua autoridade foi ignorada frequentemente. Em tempos mais recentes os muçulmanos tinham conquistado os territórios imperiais da África, e por diversas razões a autoridade do imperador na Itália tinha sido limitada ao extremo sul da península. Agora, em virtude da ação de Leão, havia um imperador no Ocidente, e o papado se colocava definitivamente fora da jurisdição do Império do Oriente. Havia nascido a cristandade ocidental.

História da Igreja - Parte 13

A Era das Trevas
Sob o regime dos bárbaros
O velho Império Romano estava moribundo, e não o sabia. Além das suas fronteiras do Reno e do Danúbio, agitava-se uma multidão de povos, prontos para irromper nos territórios romanizados. Estes povos, aos quais os romanos chamavam de "bárbaros", seguindo o exemplo dos gregos, tinham habitado as florestas e estepes da Europa Oriental durante séculos. Desde seu início o Império Romano fora constantemente obrigado a proteger suas fronteiras contra as incursões dos bárbaros. Para isso, construiu fortificações acompanhando o Reno e o Danúbio e, na Grã-Bretanha, uma muralha que separava os territórios romanizados dos que permaneciam em mãos de bárbaros. Para facilitar a defesa, repartiram as terras entre os soldados que vi¬viam nelas como colonos, em condições de correr ao campo de batalha se fosse necessário.
Deste modo, o Império Romano conseguiu defender suas fronteiras até meados do século IV. Porém, a partir de então, a defesa ficou cada vez mais difícil, até que por fim toda a parte ocidental do Império sucumbiu diante das vagas de invasores.
Em resumo, em fins do século V, a parte ocidental do Im¬pério Romano estava dividida entre uma série de reinos bárbaros. Destes, os mais importantes eram o dos vândalos no norte da África, dos visigodos na Espanha, os sete reinos dos anglos e dos saxões na Grâ-Bretanha, o dos francos na Gália, e o dos ostrogodos na Itália. Aqui, dois esclarecimentos são de grande importância para o curso futuro da história da igreja.
O primeiro destes esclarecimentos é que os diversos chefes, ou reis bárbaros, não se consideravam independentes do Império Romano. Muitos deles tinham cruzado as fronteiras com permissão do Império, para estabelecer-se como "federados".
Outros, mesmo a princípio sendo invasores, tinham colocado suas ar¬mas a serviço do Império contra algum outro povo bárbaro. E todos continuavam declarando que eram súditos do Império Romano. Seu propósito não tinha sido destuir a civilização romana, mas participar dos seus benefícios. Por isso, mesmo se muitas vezes suas campanhas e políticas destruíram grande parte desta civilização, a longo prazo quase todos os povos estabelecidos no velho Império acabaram por romanizar-se.
Isso pode ser visto, até os nossos dias, nos indiomas falados em Espanha, Portugal, França e Itália, cujas raízes se encontram muito mais na língua latina que nas dos bárbaros.
O segundo esclarecimento é que muitos destes invasores eram cristãos. No século IV, quando os godos se encontravam ao norte do Danúbio, havia entre eles missionários provenientes da parte oriental do Império Romano. O mais famoso deles, de quem só sabemos o nome godo, Ulfila, tinha inventado uma maneira de escrever a língua gótica e traduzido as Escrituras para ela.
Além disso, no tempo do imperador Constâncio, estivera em Constantinopla um forte contingente de soldados godos a serviço do Império. Muitos desses soldados se tornaram cristãos e depois regressaram ao seu povo com sua fé. Já que todos esses contatos tiveram lugar na época do apogeu do arianismo no Oriente, os visigodos se converteram a esta forma de fé cristã. Através deles também os ostrogodos, os vândalos e outros povos bár¬baros se tornaram cristãos arianos.
A falta de documentos impede que conheçamos os detalhes desta rápida e enorme expansão do cristianismo além das fronteiras do Império. Se os conhecêssemos, provavelmente, seriam das mais interressantes páginas da história da igreja. Em todo caso, o fato é que muitos dos bárbaros que no século V se estabeleceram na África, Espanha e Itália eram arianos.
Isso trouxe consequências sérias, pois até então, a questão do arianismo nunca havia sido discutida na parte ocidental do Império, como o fora na parte oriental.
Por isso, boa parte da história da igreja, durante os séculos V e VI, consiste no con¬flito entre o arianismo e a fé católica. O modo com que aqui usamos o termo "fé católica" não se refere ao catolicismo ro¬mano atual, mas simplesmente à fé dos que aceitavam a doutri-na trinitária que tinha sido promulgada nos concílios de Nicéia e de Constantinopla.
Neste sentido, tanto os protestantes quanto os católicos romanos do século XXI sustentam a "fé católica" frente ao arianismo. O que estava em jogo era, primeiro, se os arianos obrigariam os católicos a se converter, ou vice-versa; e, segundo, se os bárbaros que ainda eram pagãos se tornariam católicos ou arianos.
Assim, os séculos V a VIII foram um período de obscuridade e angústia na Europa Ocidental. As invasões dos bárbaros puseram um fim ao poderio efetivo do Império Romano na região, mesmo considerando-se que, durante séculos, muitos destes mesmos bárbaros continuassem a agir como se súditos fossem do Império agonizante.
Do ponto de vista religioso, os bárbaros reintroduziram na Europa Ocidental os elementos que pouco antes pareciam estar quase desaparecidos: o paganismo e o arianismo. Quase todos os invasores eram arianos: os vândalos, os visigodos, os ostrogodos, os suevos, os burgúndios e os lombardos.
Com o passar do tempo, esses povos ou desapareceram (os ostrogodos e os vândalos), ou se tornaram católicos (os suevos, os visigodos e os burgúndios). Quanto aos povos pagãos, todos se tornaram católicos. Mas algumas destas conversões foram resultado da pressão exercida por algum povo vizinho. Porém, na maior parte, foram simplesmente o resultado do processo de assimilação que ocorreu depois das invasões.
Os bárbaros não penetraram no Império para destruir a civilização romana, mas para participar dela. Por essa razão, a maioria deles logo esqueceu as línguas bárbaras e começou a falar (mal ou bem) o latim. Esta é a origem das nossas línguas latinas modernas.
De igual modo, os bárbaros abandonaram suas antigas crenças e acabaram por aceitar as dos povos conquistados. Esta é a origem do cristianismo ocidental, do tipo que a Idade Média conheceu.
Em todo esse processo, existe dois elementos da vida da igreja que se destacam por sua importância na conversão dos bárbaros e na preservação da cultura antiga. Esses dois elemen¬tos são o monasticismo e o papado.

O monasticismo
Vimos anteriormente que quando a igreja se uniu ao Império e tornou-se a igreja dos poderosos, houve muitos que, sem abandoná-la, se separaram dela para levar uma vida de renúncia especial, o que deu origem ao monasticismo. Se bem que naquela oportunidade vimos como o ideal monástico se propagou do Oriente de fala grega até o Ocidente de fala latina, na verdade, naquela época, o monasticismo ainda era um fenômeno principalmente oriental, cujos centros mais importantes eram Egito, Síria e, algum tempo mais tarde, Capadócia. Os monges que existiam no Ocidente somente imitavam o que tinham aprendido, ou ouvido, dos monges do Oriente.
O monasticismo oriental, todavia, não se adaptava de todo à Europa Ocidental. Além das diferenças de clima, que impediam que os monges ocidentais levassem a mesma vida que levavam os do Egito, havia diferenças significativas na maneira de encarar a vida cristã e a função do monasticismo nela.
A primeira dessas diferenças provinha do espírito prático que os romanos tinham deixado como seu legado à igreja ocidental. O cristianismo latino não via com bons olhos os exces¬sos da vida ascética dos anacoretas do Oriente. O propósito da vida ascética, assim como de qualquer exercício atlético, não é destruir o corpo, porém fazer com que ele seja cada vez mais capaz de enfrentar todos os tipos de provas. Por isso, o Ocidente não via com aprovação o jejum até o desfalecimento, ou a falta de dormir, só para castigar o corpo.
Além disso, como parte deste espírito prático, boa parte do monasticismo ocidental tinha o propósito de levar a cabo a obra de Deus, e não só de conseguir a própria salvação. Muitos monges do Ocidente usaram a disciplina monástica como um modo de se preparar para a obra missionária. Exemplo disto são Columba e Agostinho, e houve milhares de monges que seguiram o caminho traçado por eles. Outros monges ocidentais lutavam contra as injustiças e os crimes do seu tempo. Símbolo destes é Telêmaco, o monge que em princípios do século V se lançou ao meio de um combate de gladiadores, na arena do circo romano, para detê-lo. A multidão enfurecida, supostamente cristã, o matou. Porém a partir desta data, e em consequência da ação de Telêmaco, os combates de gladiadores foram proibidos pelo imperador Honório.
Outra diferença entre o monasticismo grego e o latino é que este último nunca sentiu a enorme atração pela vida solitária que dominou boa parte do monasticismo oriental. Apesar de haver no Ocidente alguns ermitões solitários, e de alguns dos mais famosos monges ocidentais praticarem por algum tempo este tipo de vida, a grosso modo, o ideal do monasticismo ocidental foi a vida em comunidade.
Por último, o monasticismo ocidental poucas vezes viveu a tensão constante com a igreja hierárquica que caracterizou o monasticismo oriental, principalmente nos primeiros tempos.
Até os dias de hoje o monasticismo segue seu próprio rumo nas igrejas orientais, prestando pouca atenção à vida da igreja em geral, a não ser quando algum monge é chamado para ser bispo. No Ocidente, ao contrário, a relação entre o monasticismo e a igreja hierárquica sempre tem sido estreita. A não ser nos momentos em que a corrupção extrema da hierarquia levava os monges a reformá-la, o monasticismo foi sempre o braço direito da hierarquia eclesiástica. Em mais de uma ocasião os monges reformaram a hierarquia, ou a hierarquia reformou o monasticismo decadente.
De certo modo o monasticismo ocidental encontrou seu fundador em Benedito de Núrsia. Antes dele, houve muitos monges da igreja ocidental, porém somente ele conseguiu dar ao monasticismo latino o seu próprio sabor, de tal modo que depois dele o monasticismo não foi mais algo importado do Oriente grego, mas uma planta autóctona.
Benedito nasceu na pequena aldeia italiana de Núrsia, por vojta do ano de 480. Para colocarmos sua vida dentro do quadro de acontecimentos, recordemo-nos que Odoacro depôs o último imperador do Ocidente em 476, e que em 493, quando Benedito começava sua adoles¬cência, toda a Itália estava nas mãos dos ostrogodos. A família de Benedito pertencia à velha aristocracia romana, e é de se supor que ele presenciou, durante sua mocidade, as tensões entre católicos e arianos que caracterizaram esta época na Itália.
Quando tinha mais ou menos vinte anos de idade, Benedito se retirou para viver sozinho em uma caverna, onde se dedicou a um tipo de vida extremamente ascético. Levava ali uma luta contínua contra as tentações. Seu biógrafo, Gregório, o Grande, nos conta que nessa época o futuro criador do monasticismo beneditino se sentiu dominado por uma grande tentação carnal. Uma mulher formosa, que ele havia visto anteriormente, se apresentou em sua imaginação com tanta nitidez que Benedito não conseguia conter sua paixão e chegou a pensar em abandonar a vida monástica. Então, nos diz Gregório:
"... ele recebeu uma repentina iluminação do alto, recobrou os sentidos, e ao ver uma moita de espinheiros e urtigas tirou toda a roupa e se lançou aos espinhos e ao fogo das urti¬gas. Depois de se revolver ali durante muito tempo, saiu todo ferido ... A partir de então nunca voltou a ser tentado de maneira igual."
Excessos como esse, entretanto, não eram característicos do jovem monge, para quem a vida monástica não consistia em destruir o corpo, mas em fazê-lo apto para ser um instrumento no serviço de Deus.
Em pouco tempo, a fama de Benedito era tal que um numeroso grupo de monges se reuniu a ele. Benedito os organizou em grupos de doze. Essa foi sua primeira tentativa de organizar a vida monástica, que teve de ser interrompida quando algumas mulheres dissolutas invadiram a região.
Benedito então se retirou para Montecasino com seus mon¬ges, um lugar tão remoto que ainda havia um bosque sagrado ali, e os habitantes do lugar continuavam oferecendo sacrifícios em um antigo templo pagão.
A primeira coisa que Benedito fez foi por um fim a tudo isto, derrubando as árvores, o altar e o ídolo do templo. Depois, organizou ali uma comunidade monástica para homens, perto de outra que sua irmã gémea, Escolástica, fundou para mulheres. Ali sua fama era tamanha que vinha gente de todo o país para visitá-lo. Entre esses visitantes se encontrava o rei ostrogodo Totila, a quem Benedito repreendeu, dizendo-lhe: — "Fazes muitas coisas más, e já tens feito mais. Chegou o momento de parar com estas iniquidades... Reinarás ainda por nove anos, e morrerás no décimo".
E, de acordo com o que diz o biógrafo de Benedito, Gregório, o Grande, Totila morreu no décimo ano do seu reinado, como o monge havia predito.
Porém a fama de São Benedito não se deve às suas profecias, nem à sua prática ascética, mas à Regra deu à comunidade de Montecasino, em 529, e que em pouco tempo passou a ser a base de todo o monasticismo ocidental.
A Regra de São Benedito
O enorme impacto desta Regra não proveio da sua extensão, pois ela continha somente setenta e três breves capítulos. O impacto proveio do fato de que a Regra ordena a vida monástica de forma concisa e clara, de acordo com o temperamento e as necessidades da igreja ocidental.
Comparada com os excessos de alguns monges do Egito, a Regra é um modelo de moderação em tudo o que se refere à prática ascética. No prólogo, Benedito diz a seus leitores que "se trata de constituir uma escola para o serviço do Senhor. Nela não queremos instituir nenhuma coisa áspera nem severa".
Em consequência, em toda a Regra domina um espírito prático, às vezes até transigente. Assim, por exemplo, enquanto que muitos monges do deserto se alimentavam somente de água, pão e sal, Benedito estabelece que seus monges devem se alimen¬tar duas vezes por dia, e que em cada refeição deverá haver dois pratos cozidos e às vezes outro de legumes ou frutas frescas. Além disto cada monge recebia um quarto de litro de vinho por dia. Tudo isso, é claro, somente quando não havia escassez, pois nesse caso os monges deveriam se contentar com o que havia, sem queixas ou murmurações.
De igual modo, enquanto que os monges do deserto dormiam o menos possível, e da maneira mais desconfortável possível, Benedito prescreve que cada monge deverá ter, além do seu leito, uma coberta e um travesseiro. Ao distribuir as horas do dia, ele separa de seis a oito para o sono.
Porém, em meio à sua moderação, há dois elementos em que Benedito se mostra firme. Estes dois são permanência e obediência. Permanência quer dizer que os monges não devem andar vagando de um mosteiro para outro. Pelo contrário, de acordo com a Regra, cada monge deverá permanecer o resto de sua vida no mesmo mosteiro em que fez seus votos, a menos que por alguma razão o abade o envie a outro lugar. Isso pode parecer tirania, porém Benedito queria remediar uma situação em que muitos se dedicavam a ir de mosteiro em mosteiro, desfrutando de hospitalidade por algum tempo, até que começava-se a exigir deles que levassem junto com os demais monges as cargas do lugar, ou até que começassem a ter conflito com o abade ou com outros monges. Então, em vez de assumir sua responsabilidade, ou de resolver seus conflitos, eles iam para outro mosteiro, onde em pouco tempo surgiam os mesmos problemas.
A permanência foi, assim, uma das características da Regra que mais fez sentir seu impacto, pois deu estabilidade à vida monástica.
A obediência é outro dos pilares da Regra de São Benedito. Todos devem obediência ao abade "sem demora". Isto quer dizer que o monge não só deve obedecer, mas que deve fazer todo o possível para que esta obediência seja de bom grado. Queixas e murmurações estão absolutamente proibidas. Se em algum caso o abade ou outro superior ordena a algum monge que faça algo aparentemente impossível, este lhe exporá com todo o respeito as razões pelas quais não pode cumprir a ordem. Porém, se depois da explicação, o abade insistir, o monge tratará de fazer com boa disposição o que lhe foi ordenado.
O abade, entretanto, não deverá ser um tirano, pois o título "abade" é o mesmo que "pai". Como pai ou pastor das almas que se dedicaram, o abade terá de prestar contas delas no juízo final. Por isso, sua disciplina não deverá ser excessivamente severa, pois seu intento não é mostrar poder, mas trazer os pecadores novamente para o caminho certo.

História da Igreja - Parte 12

Gigantes da Fé
Ambrósio de Milão e Outros
Entre os muitos gigantes cristãos que o século IV produziu, nenhum levou uma vida tão interessante como Ambrósio de Milão.
Sua eleição para o bispado
O ano era 373, quando a morte do bispo de Milão veio turbar a paz desta grande cidade. Auxêncio, o bispo falecido, tinha sido posto neste cargo por um imperador ariano, que havia enviado para o exílio o bispo anterior. Agora a sede estava vaga, e a eleição ameaçava transformar-se em um tumulto que poderia ser sangrento, pois tanto os arianos como os nicenos estavam decididos a fazer com que um dos seus fosse eleito.
Para evitar derramamento de sangue, Ambrósio, o governador da cidade, foi pessoalmente à igreja onde seria realizada a eleição. Seu governo justo e eficiente lhe tinha conquistado as simpatias do povo. Natural de Tréveris, Ambrósio era filho de um alto funcionário do Império, e por isto esperava que sua carreira política o levasse a posições cada vez mais elevadas. Mas para que sua carreira não fosse arruinada era necessário evitar uma desordem violenta na eleição do novo bispo de Milão.
Com isso em mente, Ambrósio foi à igreja, pediu a palavra e começou a exortar o povo com a eloquência que mais tarde o faria famoso. À medida que Ambrósio falava a multidão se acalmava, dando a impressão de que os esforços do governador teriam bom êxito.
De repente um menino gritou: "Ambrósio bispo!" Inespe¬radamente o povo também começou a gritar: "Ambrósio bispo! Ambrósio bispo! Ambrósio! Ambrósio! Ambrósio!"
Para Ambrósio este grito da multidão podia significar o fim de sua carreira política. Por isso ele abriu passagem entre o povo, foi até o pretório e condenou diversos presos à tortura, na esperança de perder sua popularidade. O populacho, porém, o seguia e não se deixava convencer. Então o jovem governador mandou trazer para sua casa mulheres de má fama, para assim destruir a opinião que o público tinha dele. Mas o povo continuava na frente de sua casa, e continuava gritando que queria que Ambrósio fosse seu bispo. Duas vezes ele tentou fugir da cidade, ou se esconder, mas seus esforços fracassaram. Por fim, rendendo-se à insistência do povo e à ordem imperial, ele concordou em ser o bispo de Milão.
Ambrósio, todavia, nem sequer tinha sido batizado, pois naquela época muitas pessoas — especialmente as que ocupavam cargos públicos elevados — demoravam seu batismo até o final dos seus dias. Por isso foi necessário começar batizando-o. Depois, no transcurso de uma semana, ele foi feito sucessivamente leitor, exorcista, acólito (aquele que acompanha e serve, na Igreja Católica, aos ministros superiores), subdiácono, diácono e pres¬bítero, até que foi consagrado bispo oito dias depois, no dia primeiro de dezembro de 373.
O pastor de Milão
Ambrósio não quis ser bispo, mas, a partir do momento em que aceitou o cargo, ele se dedicou a cumprir cabalmente suas funções. Para ajudá-lo no trabalho administrativo da igreja ele chamou para junto de si seu irmão Urânio Sátiro, que era governador de outra província. Fez vir também o presbítero Simpliciano, que anos antes lhe tinha ensinado os rudimentos da fé cristã, para que fosse seu mestre de teologia. Sendo um homem culto, e dedicando-se com assiduidade ao estudo, Ambrósio em pouco tempo veio a ser um dos melhores teólogos da igreja ocidental. Urânio Sátiro morreu pouco depois em consequência de um naufrágio, mas, no tempo que passou com Ambrósio, ele ajudou o novo bispo a pôr seus assuntos em ordem, e a tomar nas mãos as rédeas da igreja que lhe coube dirigir.
Pouco depois da morte de seu irmão, os acontecimentos deram a Ambrósio ocasião de mostrar a maneira em que entendia suas responsabilidades pastorais. Um forte contingente godo atravessou as fronteiras do Danúbio com a permissão das autoridades imperiais, mas logo se rebelou e cometeu muitos atos de violência nas regiões a leste de Milão. Em resultado a isto chegaram muitos refugiados à cidade, e muitos cativo; permaneceram presos à espera de resgate. Diante dessa situação Ambrósio mandou fundir e vender uma parte dos tesouros da igreja, para ajudar os refugiados e pagar o resgate dos cativos. Imediatamente os arianos o acusaram de ter cometido um sacrilégio. Ambrósio retrucou:
"É muito melhor guardar almas para o Senhor, do que ouro. Porque quem enviou os apóstolos sem ouro, sem ouro reuniu também as igrejas. A igreja não tem ouro para armazená-lo, mas para entregá-lo, para gastá-lo em favor dos que têm necessidades. . . . Melhor é conservar os vasos vivos que os de ouro."
Da mesma forma Ambrósio lhes disse, ao escrever sobre os deveres dos pastores, que a verdadeira força consiste em apoiar os débeis contra os poderosos, e que eles devem convidar para suas festas e banquetes não os ricos que podem recompensá-los, mas os pobres, que têm maior necessidade e que não podern lhes oferecer nenhuma recompensa.
Ambrósio teve outra oportunidade de pôr esses princípios em prática quando, pouco depois da morte de Valente, o novo imperador, Graciano, condenou um nobre pagão injustamente à morte. O homem em questão não fazia parte da grei de Ambrósio, mas o bispo cria que seus deveres se estendiam além dos membros da sua igreja. Graciano, que provavelmente suspeitava o que Ambrósio queria dele, se negava a lhe conceder audiência. Finalmente, Ambrósio conseguiu entrar às escondidas no lugar onde o imperador estava dando uma exibição de caça, e ali insistiu com ele para que perdoasse a vida do réu. A princípio o imperador e seu séquito se indignaram contra quem interrompia suas diversões. Mas mais tarde, vencido pela coragem do bispo e pela justiça do seu pedido, Graciano perdoou o condenado, e agradeceu a Ambrósio por tê-lo obrigado a fazer justiça.
Ambrósio, porém, nunca ficou sabendo do seu triunfo mais importante. Entre seus ouvintes na catedral de Milão estava um jovem intelectual que tinha seguido uma longa peregrinação espiritual. Agora os sermões de Ambrósio foram um dos instru¬mentos que Deus usou para sua conversão. Aquele jovem se chamava Agostinho, e mesmo tendo sido Ambrósio quem o batizou, o bispo de Milão não parece ter notado os dotes excepcionais do novo convertido, que depois viria a ser o mais fa¬moso de todos os "gigantes" da sua época.
Ambrosio faleceu no dia 4 de abril de 397, domingo da ressurreição.

João Crisóstomo
Cem anos depois de sua morte, João de Constantinopla recebeu o título pelo qual o conhecemos hoje: João Crisóstomo — o homem da língua dourada. Esse título era bem merecido, pois em um século que produziu oradores como Ambrósio de Milão e Gregório de Nazianzo, João de Constantinopla se ergueu acima de todos — gigantes acima dos gigantes.
Para João, todavia, o púlpito não era simplesmente uma tribuna onde ele oferecia brilhantes peças de oratória. Ele foi antes a expressão oral de toda a sua vida, cenário da sua batalha contra os poderes do mal, vocação insubornável que mais tarde lhe custou o desterro e até a vida.
Voz do deserto que clama na cidade
Crisóstomo foi monge acima de tudo. Antes de ser monge foi advogado, educado em sua própria cidade natal de Antioquia pelo famoso orador pagão Libânio. Conta-se que quando alguém perguntou ao velho mestre quem deveria ser seu sucessor, ele afirmou: João, mas os cristãos se apossaram dele.
Antusa, a mãe de João, era uma cristã fervorosa, e amava seu filho com um amor profundo e possessivo. Aos vinte anos de idade, o jovem advogado solicitou inclusão de seu nome na lista dos que se preparavam para o batismo, e três anos depois, que era o período de preparo exigido então, ele foi batizado nas águas pelo bispo Melécio. Tudo isso era do agrado de Antu¬sa. Mas, quando seu filho comunicou seu propósito de abandonar a cidade e se dedicar à vida monástica, isto foi demais para ela, e ela o fez prometer que ele não a abandonaria enquanto ela vivesse.
A resposta de João foi simplesmente organizar um mosteiro em sua própria casa. Ali ele viveu em companhia de três amigos de sentimentos semelhantes até que, morta sua mãe, ele foi viver entre os monges das montanhas da Síria. Quatro anos ele passou aprendendo a disciplina monástica, e outros dois praticando-a com todo o rigor em meio à mais completa solidão. Como ele mesmo diria, esta vida monástica talvez não fosse o melhor preparo para a tarefa pastoral: "Muitos que passam da solidão monástica à vida ativa de sacerdote, ou bispo, se evidenciam completamente incapazes de enfrentar as dificuldades da nova situação".
Seja como for, João regressou a Antioquia depois de seus seis anos de retiro monástico, foi ordenado diácono, e pouco depois presbítero. Como tal, ele começou a pregar, e sua fama logo se espalhou por toda a igreja de fala grega.
Quando o bispado de Constantinopla ficou vago em 397, João foi obrigado por ordem imperial a ocupar o cargo. Sua popularidade era tão grande em Antioquia que as autoridades mantiveram em segredo o que tramavam. Simplesmente o convidaram a visitar uma capela fora da cidade, e quando estava distante do povo ordenaram-lhe que entrasse na carroça imperial, na qual ele foi levado para Constantinopla contra a sua vontade. Ali ele foi consagrado bispo — ou patriarca, pois o bispo dessa cidade ostentava este título — em princípios de 398.
Constantinopla era uma cidade rica, dada ao luxo e às intrigas políticas. Esta situação tinha piorado porque o grande imperador Teodósio tinha morrido, e os dois filhos que lhe tinham sucedido — Honório e Arcádio — eram indolentes e ineptos.
Arcádio, que oficialmente governava o Oriente de Constantinopla, por sua vez se deixava governar pelo admi¬nistrador do palácio, Eutrópio, que utilizava seu poder para satisfazer suas próprias ambições e as de seus amigos. Eudóxia, a imperatriz, se sentia humilhada pelo poder do administrador — apesar de dever a ele a possibilidade de ter casado com Arcádio.
Na própria escolha de João não faltaram intrigas de que ele mesmo nem sabia, pois Teófilo, o patriarca de Alexandria, tinha feito tudo que podia para colocar no trono episcopal de Constantinopla um alexandrino, e Eutrópio tinha imposto sua vontade e nomeado o antiocano João.
O novo bispo de Constantinopla não sabia de nada disso. Até onde conhecemos seu caráter, é bem provável que mesmo tendo conhecimento de tudo ele teria agido como agiu. O antigo monge continuava sendo-o, e não podia tolerar a maneira com que os habitantes ricos de Constantinopla queriam adaptar o evangelho aos seus próprios luxos e comodidades.
Seu primeiro objetivo foi reformar a vida do clero. Alguns sacerdotes que diziam ser celibatários tinham em suas casas mulheres que chamavam de irmãs espirituais, e isto escandalizava a muitos. Outros clérigos tinham se tornado ricos, e viviam em tanto luxo como os poderosos civis da grande cidade. As finanças da igreja estavam completamente desorganizadas, e a tarefa pastoral era negligenciada. João logo enfrentou todos estes problemas, proibindo que as "irmãs espirituais" vivessem com os sacerdotes, e exigindo que estes levassem uma vida austera. As finanças foram submetidas a um sistema de controle detalhado. Os objetos de luxo que haviam no palácio do bispo foram vendidos para dar de comer aos pobres. E o clero recebeu ordens para abrir as igrejas durante as tardes, para que as pessoas que trabalhavam pudessem entrar nelas. É desnecessário mencionar que isto tudo, apesar de lhe conquistar o respeito de muitos, também lhe granjeou o ódio de outros.
A reforma, no entanto, não poderia ser limitada ao clero. Era necessário que os leigos também levassem uma vida mais de acordo com os princípios evangélicos. Por isso o orador de língua dourada trovejava do púlpito:
Esse freio de ouro na boca do teu cavalo, este aro de ouro no braço do teu escravo, esses adornos dourados em teus sapatos, são sinal de que estás roubando o órfão e matando de fome a viúva. Depois de morreres, quem passar pela tua casa dirá: "Com quantas lágrimas ele construiu esse palácio? Quantos órfãos se viram nus, quantas viúvas injuriadas, quantos operários receberam salários injustos?" Assim nem mesmo a morte te livrará dos teus acusadores.
Era o monge do deserto que clamava na cidade. Era a voz do cristianismo antigo que não se dobrava às tentações do cristianismo imperial. Era um gigante cuja voz fazia tremer até os fundamentos da sociedade — não por que sua língua era de ouro, mas porque suas palavras eram do alto.
As vidas de Crisóstomo e Ambrósio, comparadas, nos são indícios do rumo diferente que a longo prazo as igrejas do Oriente e do Ocidente encetariam. Ambrósio enfrentou o mais poderoso imperador da sua época, e saiu vencedor. Crisóstomo, por sua vez, foi destituído e enviado para o exílio pelo débil Arcádio. A partir do próximo século, a igreja do Ocidente — isto é, a de fala latina — se tornaria cada vez mais poderosa, em meio aos desastres que destruíram o poder do Império. No Oriente, pelo contrário, o Império duraria por mais mil anos. Às vezes forte, outras vezes fraco, esse rebento oriental do velho Império Romano — o chamado Império Bizantino — guardaria com zelo suas prerrogativas sobre a igreja. Teodósio não foi o último imperador do Ocidente que teve de se humilhar diante de um bispo de fala latina. E João Crisóstomo — o da língua de ouro — não foi o último bispo de fala grega enviado para o exílio por um imperador do oriente.

Jerônimo
Dos gigantes do quarto século nenhum é tão interessante como Jerônimo. Interessante não por sua santidade, como António, o eremita, nem por sua intuição religiosa, como Atanásio, nem por sua firmeza contra a injustiça, nem tampouco por sua devoção pastofal, como Crisóstomo, mas por sua luta gigantesca e interminável com o mundo e consigo mesmo. Mesmo sendo conhecido como "São Jerônimo", ele não era destes santos a quem foi dado gozar nesta vida a paz de Deus. Sua santidade não foi humilde, amável e doce, mas orgulhosa, grosseira e amarga. Jerônimo sempre desejou estar acima do humano, e por isso não tinha paciência com os que lhe pareciam ser indolentes, nem com os que de alguma maneira ousa¬vam criticá-lo. Entre as muitas pessoas que foram objeto dos seus ataques impiedosos estavam não só os hereges, os igno¬rantes e os hipócritas, mas também João Crisóstomo, Ambrósio de Milão, Basílio de Cesaréia e Agostinho de Hipona. Os que se atreviam a criticá-lo eram simplesmente "asnos de duas patas". Mas apesar dessa atitude — e em parte por causa dela — Jerônimo conquistou um lugar entre os gigantes do cristianismo no século IV.
Jerônimo nasceu por volta de 348 em um lugar remoto do norte da Itália. Considerando sua data de nascimento, ele era mais novo que muitos gigantes que estudamos. Mas Jerônimo nasceu velho, e por isto logo se considerou muito acima dos seus contemporâneos. E, o que é ainda mais surpre¬endente, muitos deles logo passaram a encará-lo como uma instituição imponente e antiga.
Recebeu o batismo quando tinha uns vinte anos de idade, e poucos anos depois decidiu viajar para o Oriente. Jerônimo tinha se dedicado ao estudo das letras, e nesse campo o ocidente latino tinha grande admiração pelo oriente grego. Além disso, ele decidiu se dedicar ao estudo das letras divinas, depois de uma experiência em Tréveris que não sabemos com precisão, e neste campo o oriente também era famoso. A primeira cidade que visitou foi Antioquia, onde passou algum tempo para aprender melhor o grego. Pouco depois pediu a um judeu convertido que lhe ensinasse o hebraico.
Mas isso não bastava. Jerônimo ainda sentia uma paixão ardente pelas letras pagãs e a vida sensual. Tentando vencer suas tentações, passou a levar uma vida austera, e estudou a Bíblia com mais assiduidade. Acabou se retirando de Antioquia, para viver como eremita, em Caleis. As suas tentações, porém, o seguiram também para lá. Ele tinha levado sua biblioteca consigo, e na caverna em que vivia ele estudava, copiava livros e escrevia tratados. Seu espírito foi sacudido quando, no meio de uma enfermidade grave, ele sonhou que estava no juízo final, e que o juiz lhe perguntava: "Quem és?" Jerônimo afirmava: "Sou cristão". E o juiz lhe respondia: "Mentes. Não és cristão, mas ciceroniano". A partir de então Jerônimo se dedicou com afinco redobrado ao estudo das Escrituras, se bem que nunca deixou de citar, nem de ler e imitar os escritores pagãos.
O sexo também era uma obsessão para ele. Jerônimo que¬ria se libertar totalmente dele. Mas os sonhos e as lembranças das dançarinas de Roma o seguiam até mesmo para Caleis. A única maneira de se desfazer destas tentações era castigar o próprio corpo, e por causa disto ele levava uma vida exageradamente austera. Andava sujo, e chegou mesmo a dizer e praticar que quem tinha sido lavado por Cristo não tinha necessidade de se lavar de novo.
E isto ainda não bastava. Era necessário ocupar sua mente com algo que desalojasse as lembranças de Roma. Foi então que ele decidiu estudar hebraico. Para sua mente treinada na literatura clássica, o hebraico, com suas letras raras e suas aspirações, parecia bárbaro. Mas como cristão ele dizia que nesta língua estavam escritos os livros sagrados, e que por isto ela era divina. Neste período, escreveu também a Vida de São Paulo, o eremita.
Jerônimo, no entanto, não fora feito para levar uma vida de anacoreta (religioso ou penitente que vive na solidão). Provavelmente, antes de completar três anos como eremita, ele regressou à civilização. Em Antioquia, ele foi ordenado presbítero. Esteve em Constantinopla antes e durante o concílio ecuménico do ano 381. Mais tarde voltou para Roma, onde o bispo Damásio, bom conhecedor da natureza humana, fez dele seu secretário particular, e lhe deu todo tipo de oportunidades para estudar e escrever. Damásio foi também o primeiro que lhe deu a sugestão da obra que mais tarde consumiria boa parte da sua vida e seria seu principal monumento: uma nova tradução da Bíblia para o latim. Jerônimo já dera alguns passos nesta direção quando ainda estava em Roma, mas se entregou totalmente a esta tarefa somente bem depois, em Belém.
Em Roma, Jerônimo encontrou consolo com um grupo de mulheres castas e devotas. No palácio da viúva Albina e de sua filha Marcela — também viúva — vivia um grupo de mulheres que se dedicavam a uma vida austera, à meditação religiosa e ao estudo das Escrituras. Faziam parte deste grupo, além de Marcelina (a irmã de Ambrósio de Milão), Asséia, a filha de Marcela, e Paula, que junto com sua filha Eustóquia acompanharia desde então a vida de Jerônimo. O secretário do bispo visitava esta casa com frequência, pois teve nestas mulheres discípulas consagradas, que absorviam com avidez seus conhecimentos. Algumas logo começaram a estudar grego e hebraico, e Jerônimo tinha com elas conversas sobre o texto bíblico, o que não era possível com seus contemporâneos homens.
É interessante que Jerônimo, que nunca soube manter um relacionamento amistoso com seus colegas homens, o soube com este grupo de mulheres. E isto apesar de o sexo sempre ter sido para ele uma obsessão, tanto que ele tinha horror de pensar na fisiologia feminina. Entre estas mulheres santas, porém, que escutavam com avidez e que não poderiam querer corrigi-lo, Jerônimo estava tranquilo e à vontade, e assim foram elas, e não o resto do mundo, que conheceram a devoção e a doçura que estavam escondidas no fundo da sua alma.
Enquanto isso, entretanto, Jerônimo continuava fazendo inimigos entre as pessoas chegadas ao bispo Damásio. Não fosse o apoio deste, seus anos de paz em Roma nunca teriam acontecido. Por isso quando Damásio morreu, em fins de 384, a tempestade se desencadeou. Basília, uma das filhas de Paula, morreu, e algumas pessoas disseram que sua morte fora cau¬sada pela vida excessivamente rigorosa que Jerônimo lhe tinha imposto. Sirício, o sucessor de Damásio, não apreciava os estudos de Jerônimo, e este afinal decidiu ir embora de Roma, para a Terra Santa - ou, como ele dizia, "de Babilónia para Jerusalém".
Acima de tudo, no entanto, Jerônimo se dedicou à obra que seria seu principal monumento literário: a tradução da Bíblia para o latim. Naturalmente já existiam outras traduções das Escrituras naquela época. Mas todas tinham sido feitas a partir da Septuaginta, isto é, a tradução do Antigo Testamento do hebraico para o grego. Jerônimo se pôs ao trabalho, apesar de ser constantemente interrompido por sua enorme correspondência, suas constantes controvérsias e as calamidades que assolavam o mundo.
A longo prazo a versão de Jerônimo — conhecida como a Vulgata — se impôs em toda a igreja de fala latina, mas a princí¬pio não foi tão bem recebida como Jerônimo desejara. Naturalmente a nova tradução da Bíblia — como toda tradução nova — mudava algumas das passagens favoritas de algumas pessoas, e muitos se perguntavam que direito tinha Jerônimo de mudar as Escrituras.
Além disso, muitas tinham aceito a lenda de acordo com a qual a Septuaginta tinha sido traduzida por setenta homens que coincidiram até mesmo nos mínimos detalhes na sua tradução, apesar de trabalharem separadamente. Com isso justificava-se a versão grega, e afirmava-se que ela era tão inspirada como o original hebraico. Por isso, quando Jerônimo publicou uma nova versão que diferia da Septuaginta, não falta¬ram os que o acusaram de estar desrespeitando as Escrituras.
Estas críticas não provinham somente de pessoas ignorantes, mas até mesmo de alguns dos sábios mais distintos da época. Agostinho lhe escreveu, do norte da África:

Rogo-te que não dediques teus esforços à tradução dos livros sagrados para o latim, a menos que sigas o método que seguiste antes, em tua versão do livro de Jó, ou seja, acrescentando notas que mostrem claramente em que pontos tua versão difere da Septuaginta, cuja autoridade é inigualável... Além disso não vejo como, depois de tanto tempo, alguém possa descobrir nos manuscritos hebraicos alguma coisa que tantos tradutores e bons conhecedores da língua hebraica não tenham visto antes.

Jerônimo não lhe respondeu logo, e quando finalmente o fez, simplesmente deu a entender a Agostinho que ele não deveria tentar se promover, atacando os que eram maiores do que ele. De maneira sutil, ao mesmo tempo que parecia elogiá-lo, Jerônimo dizia a Agostinho que o combate seria desigual, e que, portanto, o bispo faria bem deixando de criticar o velho erudito.
A maior parte das controvérsias de Jerônimo terminaram em querelas nunca resolvidas, mas, no caso de Agostinho, a situação foi diferente, pois anos mais tarde Jerônimo precisou refutar a heresia dos pelagianos — da qual falaremos depois — e para isso teve de recorrer às obras de Agostinho. Sua próxima carta para o sábio bispo demonstra uma admiração que Jerônimo reservava para muito poucas pessoas.
Tudo isso pode dar a entender que Jerônimo era uma pessoa insensível, preocupada somente com o próprio prestígio. Pelo contrário, seu espírito era extremamente sensível, e precisamente por esta razão ele tinha de apresentar para o mundo uma fachada rígida e imperturbável. Talvez ninguém soubesse isso tão bem como Paula e Eustóquia, sua filha. Mas Paula mor¬reu em 404 e Eustóquia em 419, e Jerônimo ficou só e desani¬mado. Sua dor era tanto maior porque ele sabia que não só ele se aproximava de seu fim, mas toda uma era.
Uns poucos anos antes, em 410, Roma tinha sido tomada e saqueada pelos godos, sob o comando de Alarico. Todo mundo estremeceu a esta notícia. Quando Jerônimo o soube, em seu retiro em Belém, escreveu a Eustóquia:

"Quem pode acreditar que Roma, construída pela con¬quista do mundo, tenha caído? Que a mãe de muitas nações se transformou num túmulo? . . . Meus olhos obscurecem por causa da minha idade,... e com a luz que tenho à noite não posso ler os livros em hebraico, que até de dia me são difíceis por causa do pequeno tamanho das letras."

Jerônimo viveu ainda quase dez anos depois da queda de Roma. Foram anos de solidão, controvérsias e sofrimento. Por fim, poucos meses depois da morte de Eustóquia, o velho erudito entregou o espírito.

Agostinho de Hipona
"Toma e lê. Toma e lê. Toma e lê". Estas palavras, que alguma criança gritava em seus jogos infantis, flutuaram sobre a grade do parque de Milão e foram dar nos ouvidos do abatido mestre de retórica que clamava debaixo de uma figueira: "Até quando, Senhor, até quando? Amanhã, sempre amanhã? Porque não acaba com minha imundície neste exato momento?"
As palavras que o menino gritava lhe pareceram ser um sinal do céu. Pouco antes ele jogara fora, em outro lugar do parque, um manuscrito que estivera lendo. Agora voltou para lá, tomou-o e leu as palavras do apóstolo Paulo: "Não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne" (Romanos 13:13-14). Em resposta a essas palavras do apóstolo, Agostinho — porque assim se chamava aquele mestre de retórica — decidiu ali mesmo o que estivera tentando decidir por muito tempo. Dedicou-se totalmente à vida religiosa, deixou sua ocupação como professor, e em resultado a tudo isso a posteridade o conhece como "Santo Agostinho".
Mas para compreendermos o alcance e o sentido daquela experiência no parque de Milão, precisamos nos deter para narrar a vida do jovem Agostinho até aquele momento crucial,
Caminho para a salvação
Agostinho nasceu em 354, no povoado de Tagaste, no norte da África. Seu pai era um oficial romano do escalão inferior, e era pagão. Sua mãe, porém, Mônica, era uma cristã fervo¬rosa, cuja oração constante pela conversão de seu esposo aca¬baria sendo respondida. Agostinho parece não ter tido um relacionamento muito íntimo com seu pai, pois o menciona muito pouco em suas obras. Mônica, no entanto, soube conquistar seu afeto, a ponto de boa parte da vida adulta de Agostinho ainda ter transcorrido à sombra de sua mãe.
Seja como for, os pais de Agostinho sabiam que seu filho tinha uma inteligência pouco comum e, por isso, se esmeraram em oferecer-lhe a melhor educação disponível. Com este propó¬sito, enviaram-no primeiro para a próxima cidade, Madaura, e depois para Cartago.
Agostinho tinha uns dezessete anos quando chegou à grande cidade que durante vários séculos tinha sido o centro político, económico e cultural da África de fala latina. Parece que ele não se descuidou dos estudos, mas logo ele começou a desfrutar também dos diversos prazeres que Cartago lhe oferecia. Conheceu ali uma mulher com a qual passou a conviver, e de quem teve seu único filho, Adeodato.
A matéria que Agostinho estudava, retórica, servia para preparar advogados e funcionários públicos. Seu objetivo era ensinar a falar de maneira elegante e convincente, e não se importava se o que era dito era certo ou não. Os professores de filosofia podiam se preocupar com a natureza da verdade. Os de retórica se preocupavam somente com o bom falar. Por isso esperava-se que Agostinho aprendesse em Cartago não a verdade, mas somente a maneira de persuadir os demais de que o que ele dizia era certo e justo.
Entre as obras da antiguidade que os estudantes de retórica deviam ler estavam as de Cícero, o famoso orador da era clássica romana. E Cícero, além de orador, tinha sido filósofo. Agostinho, lendo uma das suas obras, devido a isto se convenceu que o bom falar não era suficiente. Era necessário buscar a verdade.
Essa busca o levou, primeiramente, para o maniqueísmo. O maniqueísmo era uma religião de origem persa, fundada por Mani na primeira metade do século III. Na opinião de Mani, a difícil situação humana era causada pelos dois princípios que há em cada um de nós. Um deles é espiritual e luminoso. O outro — a matéria — é físico e tenebroso. Em todo o universo há dois princípios igualmente eternos: a luz e as trevas. De alguma maneira, que os maniqueus explicavam através de uma série de mitos, estes dois princípios se mesclaram e se confundiram, e esta confusão se projetou sobre a situação humana. A salvação, então consiste em separar esses dois elementos, e em preparar nosso espírito para a volta ao reino da luz, e sua fusão final com a luz eterna. Como toda nova mistura é necessariamente má, os novos crentes devem fazer tudo para evitá-la — e por esta razão, os maniqueus, apesar de não condenarem o sexo, condenavam a procriação.
Mani dizia que essa doutrina tinha sido revelada em diversas épocas a vários profetas, entre os quais estavam Buda, Zoroastro, Jesus e, por último, ele próprio.
No tempo de Agostinho, o maniqueísmo tinha se espalhado por toda a costa do Mediterrâneo, e seu principal meio de difusão era sua auréola de ser uma doutrina eminentemente racional.
Assim como o gnosticismo em épocas anteriores, o maniqueísmo explicava suas doutrinas com base em observações astronômicas. E boa parte de sua propaganda consistia em ridicularizar as doutrinas da igreja, particularmente as Escrituras, cujo materialismo e linguagem primitiva eram objeto de crítica e zombaria.
Tudo isso parecia ser uma resposta para as dúvidas de Agostinho, que estavam centralizadas em dois pontos. O primeiro destes era que as Escrituras cristãs, do ponto de vista da retórica, eram uma série de escritos pouco elegantes e até mesmo bárbaros, que faziam caso omisso de muitas regras do bom falar, e onde estavam registrados muitos episódios grosseiros de violência, violações, engano, e outros. O segundo era a questão da origem do mal. Mônica lhe tinha ensinado que só havia um Deus. Mas Agostinho olhava ao seu redor, e para dentro de si mesmo, e se perguntava de onde vinha todo o mal que existia no mundo. Se Deus era a suprema bondade, ele não podia ter criado o mal. E se Deus criou todas as coisas, não podia ser tão bom e sábio como Mônica e a igreja diziam. Nos dois pontos, o maniqueísmo parecia ter uma resposta. As Escrituras — o Antigo Testamento em particular — na verdade não eram a palavra do princípio da luz eterna. O mal também não era produto deste princípio, mas de seu oponente, o princípio das trevas.
Por todas essas razões, Agostinho se tornou maniqueu. Mas ainda restavam dúvidas, e por esta razão, durante nove anos, ele não passou de "ouvinte" do maniqueísmo, sem tentar ascender para a classe dos "perfeitos". Quando ele expressava suas dúvidas nas reuniões dos maniqueus, os outros lhe diziam que estes problemas eram muito profundos, e que o grande sábio maniqueu, um tal de Fausto, lhe daria a resposta. Quando a tão ansiada visita finalmente chegou. Fausto provou ser uma farsa, cujo conhecimento não era maior que o dos demais mestres do maniqueísmo. Desiludido Agostinho decidiu conduzir sua busca pela verdade por outros caminhos. Seus estudantes cartaginenses também não se comportavam tão bem como ele desejava, e por isso, ele decidiu tentar sua sorte em Roma.
Os estudantes romanos, por sua vez, mesmo se portando melhor não o pagavam, e por essa razão ele se transferiu para Milão onde havia uma vaga de professor de retórica.
Em Milão, Agostinho se tornou neoplatônico. O neoplatonismo era uma doutrina muito popular naquela época. Não podemos descrever aqui toda esta filosofia, mas é suficiente se dissermos que o neoplatonismo era tanto uma doutrina como uma disciplina. Seu objetivo central era vir a conhecer o Um inefável, do qual provinham todas as coisas, combinando o estudo com a contemplação mística, até chegar ao êxtase.
Em oposição ao maniqueísmo, o neoplatonismo cria que existia só um princípio, do qual provinha toda a realidade, através de uma série de emanações — como os círculos concêntricos que uma pedra produz em uma piscina. As realidades mais próximas deste Um são superiores, e as mais distantes dele inferiores. O mal, então, não provém de um outro princípio, mas consiste em afastar-se do Um inefável, e dirigir os olhos e pensamentos para a infinita multiplicidade do mundo material.
Tudo isso era uma resposta para uma das velhas interrogações de Agostinho, o problema da origem do mal. Desse ponto de vista, era possível afirmar que um só ser, de bondade infinita, era a fonte de toda a criação, sem com isso negar o mal que há nela. O neoplatonismo também ajudou Agostinho a conceber Deus e a alma em termos menos materialistas que os que tinha apren¬dido com os maniqueus.
Ainda restava, porém, uma dúvjda. Como podiam as Escrituras, com sua linguagem rude e suas histórias de violência e roubo, ser a Palavra de Deus? Foi nesse ponto que Ambrósio de Milão entrou em cena.
Agostinho, como professor de retórica, foi ouvir a pregação do famoso bispo. Seu propósito não era ouvir o que Ambrósio dizia, mas como ele o dizia. Se Ambrósio tinha tanta fama de ser um bom orador, a causa disso deveria ser sua retórica. Agostinho, pois, foi por razões puramente profissionais diversas vezes à igreja, para ouvir a pregação de Ambrósio. À medida que o ouvia, no entanto, prestava menos atenção à maneira com que o bispo elaborava seus sermões, e mais ao que dizia neles. Ambrósio usava o método alegórico na interpretação de muitas passagens em que Agostinho tinha encontrado dificuldades.
Como esse método era perteitamente aceitável na ciência retórica da época, Agostinho não podia fazer nenhuma objeção. O que Ambrósio na verdade estava fazendo, apesar de não estar ciente disto, era mostrar ao mestre de retórica a riqueza e o valor das Escrituras.
A partir de então as dificuldades intelectuais estavam resolvidas. Mas havia outras. Agostinho não se tornaria cristão facil¬mente. Se decidisse abraçar a fé de sua mãe, o faria de todo coração, e para toda a vida. Por causa do exemplo dos monges e da sua própria formação neoplatônica, Agostinho estava convicto de que teria de renunciar à sua carreira de professor de retórica, e todas as suas ambições e gozo dos prazeres sensuais, se se tornasse cristão. Esse último ponto era a principal dificul¬dade que ainda o detinha. Ele mesmo conta que sua constante oração era: "Dá-me castidade e continência. Mas não logo".
Então recrudesceu nele a batalha entre o querer e o não querer. Ele queria se tornar cristão. Mas ainda não. Sabia que não podia mais interpor dificuldades de ordem intelectual, o que fazia a luta consigo mesmo ser mais intensa ainda. De todos os lados lhe vinham notícias de outras pessoas que tinham feito o que ele não arriscava fazer, e ele sentia inveja.
Uma destas pessoas era o famoso filósofo Mário Vitorino, que tinha tradu¬zido para o latim as obras neoplatônicas que Agostinho tanto apreciava, e que certo dia se apresentou na igreja de Roma para fazer profissão pública da sua fé cristã. Pouco depois de ser informado da atitude de Mário Vitorino, Agostinho soube de dois altos funcionários que tinham lido a Vida de Santo Antó¬nio, escrita por Atanásio, e deixado cargos e honras para se dedicar a uma vida semelhante. Neste momento, não podendo tolerar a companhia de seus amigos — nem tampouco a sua — ele fugiu para o parque, onde o encontramos no começo deste relato, e onde teve lugar sua conversão.
A vida contemplativa
Depois da sua conversão Agostinho começou a dar os passos necessários em que sua decisão implicava. Pediu o batismo, e o recebeu das mãos de Ambrósio — o qual, como dissemos anteriormente, não parece ter notado os dotes excepcionais de seu converso. Renunciou ao cargo de retórica. E junto com um grupo de amigos e sua mãe Mônica decidiu regressar para o norte da África, para ali se dedicar à vida contemplativa.
Mônica o tinha acompanhado em boa parte de suas via¬gens, pois ficara viúva e desde então se dedicava inteiramente à vida religiosa e a cuidar de seu filho. Algum tempo antes, por insistência de sua mãe, Agostinho tinha despedido a concubina com quem vivera por vários anos — cujo nome ele nem sequer menciona — e ficado com Adeodato. Agora, junto com Mônica, Adeodato e alguns amigos, ele partiu para a África. No porto de Óstia, todavia, Mônica adoeceu e morreu, e Agostinho ficou tão desolado que ele e seus companheiros ficaram vários meses mais em Roma, antes de partir para a África.
Quando, por fim, chegaram em Tagaste, Agostinho vendeu a maior parte das suas propriedades, deu o dinheiro aos pobres e se dedicou a uma vida retirada em companhia de Adeodato e seus amigos. Não se tratava, no entanto, de uma vida exces¬sivamente austera, no estilo dos monges do deserto, mas mais de uma vida disciplinada dedicada ao estudo, à devoção e à meditação.
Ali Agostinho escreveu suas primeiras obras cristãs. Em algumas ainda se via a marca neoplatônica. Apesar disso, em toda a região ele em pouco tempo foi reconhecido como cristão dedi¬cado, professor hábil e líder espiritual dos seus companheiros. Em Casicíaco — assim se chamava o lugar onde eles moravam — Agostinho era completamente feliz, e não tinha outra ambição que continuar assim até o fim da sua vida.
Ministro da igreja
Mas havia os que tinham outros propósitos para sua vida. Em 391 Agostinho visitou a cidade de Hipona para encontrar um amigo que queria convidar para que se unisse ao grupo de Casicíaco. Quando foi à igreja da cidade, o bispo Valério pregou sobre como Deus envia pastores para seu rebanho, e solicitou à congregação que pedisse a Deus que indicasse se havia entre a congregação uma pessoa que ele tinha enviado para ser seu ministro, agora que ele estava envelhecendo. Naturalmente a reação da congregação foi exatamente a que o bispo desejava, e Agostinho foi ordenado, contra a sua vontade.
Quatro anos mais tarde foi feito bispo de Hipona junto com Valério, que tinha medo que alguma outra igreja lhe arrebatasse sua presa. Nesta época era proibido que um bispo fosse transferido de uma cidade para outra, e desta forma Valério garantia que Agostinho passaria o resto de seus dias em Hipona. (Agostinho não o sabia, mas também era proibido que houvesse dois bispos na mesma igreja.)
Como ministro e como bispo, Agostinho continuou levando uma vida semelhante à que tinha levado em Casicíaco. Só que não podia mais dedicar tanto tempo à contemplação, por causa dos seus deveres pastorais. Em cumprimento destas responsabilidades, ele escreveu uma série de obras que fizeram dele o teólogo mais importante da igreja ocidental desde o tempo do apóstolo Paulo.
O impacto de Agostinho
Agostinho foi o último sobrevivente da "era dos gigantes". Quando ele morreu, os vândalos estavam às portas de Hipona, anunciando uma nova época. Por isto a obra de Agostinho foi como o canto do cisne de uma época que morria.
Apesar disso, sua obra não ficou esquecida entre os escombros da civilização que desmoronava. Agostinho foi o mestre por excelência da nova época. Durante toda a Idade Média, nenhum teólogo foi mais citado do que ele, e por esta razão ele acabou sendo um dos grandes doutores da Igreja Católica Romana.
Mesmo assim, Agostinho foi também o autor favorito dos grandes reformadores do século XVI. Portanto, nenhum de todos aqueles gigantes foi tão notável quanto ele, que levou a cabo sua obra em uma pequena cidade do norte da África, mas cujo impacto se fez sentir através dos séculos futuros em todo o cristianismo ocidental — tanto católico como protestante.